A criança lésbica de Cassandra Rios


Inocência. Algum dia já fomos inocentes? Crianças são inocentes, quando se trata do que desejam, seja sexualmente ou não? Com certeza a psicanálise tem um referencial bibliográfico gigantesco sobre isso.

De certo modo, o questionamento sobre esse tema é o que margeia toda a narrativa de Eu sou uma lésbica, de Cassandra Rios (pseudônimo de Odete Rios, 1932-2002) e com publicação pela Coleção Devassa (sim, da cerveja), da Azougue Editorial. Em suas 144 páginas, vamos acompanhando o desenvolvimento de Flávia, desde os seus sete anos até, mais ou menos, seus 20 e poucos, e como ela vai se descobrindo lésbica e o modo como ela vai se relacionando com as pessoas ao seu redor.

É na infância que vamos percebendo, assim como a personagem, a sua orientação por meio do desejo que ela nutre por uma amiga de sua mãe, que mora na casa da frente, Dona Kênia. Desejo esse direcionado principalmente para as pernas e as sandálias de salto fino, Luís XIV, e tiras de couro coloridas. É também com a vizinha que ela brinca, pela primeira vez, de gatinho, quando foi deixada na casa dela em uma noite que seus pais precisaram sair e, na qual, de um modo muito natural, foi envolvendo Dona Kênia em um jogo sensual e ao mesmo tempo inocente.

Porém, logo essa relação é interrompida com a mudança de Kênia e o marido dela, Eduardo, aprofundando ainda mais o fetiche de Flávia por pernas, pés e, principalmente, sandálias de tiras de couro e salto alto fino (e pra entender como esse fetiche é saciado da infância até a adolescência e perdurando a vida adulta, você tem que ler o livro).

Na adolescência, com o início de um caso com Núcia, uma garota mais velha, prima de uma vizinha sua, Flávia passa a se “relacionar” com outras lésbicas, com as quais ela não consegue se identificar, por considerar que elas são “falsas”, já que insistem em serem “vulgares”, se masculinizarem e mesmo se submeterem a condição de amantes de homens que as sustentem ou viver uma vida dupla, dentro de casamentos e modelos de família tradicional e patriarcal.

Aqui entra a outra grande questão do livro, que é a das formas que as pessoas muitas vezes são levadas a viver em sociedade, a ideia que as fazem ter sobre si mesmas e o que elas devem esperar para suas vidas. A certa altura, é dito para Flávia que para mulheres como ela, só sobram as prostitutas ou as mulheres desiludidas com os homens, o que para ela parece ser uma coisa abominável. Abominável por excluir o sentimento de carinho, de amor e aconchego que ela sentiu, ainda quando criança, nos braços de dona Kênia.

Dona Kênia, aliás, é uma figura que, não só não desaparece do desenvolver de Flávia, mesmo “sem estar presente fisicamente”, e aqui coloco entre aspas porque o físico pode ser questionado, já que ela se materializa de outro modo, por meio de um objeto e do fetiche, como também retorna, revelando a profundidade do relacionamento que ela manteve com a menina e o tanto que isso influenciou nos atos que Flávia tomou, ainda com sete anos de idade. Questionando ainda mais a inocência de uma criança, não só no que se refere sexualidade, mas sem deixar de ser por ela influenciada.

Sobre a autora

Cassandra Rios foi um sucesso de vendas, uma verdadeira autora de best-sellers nacional, sendo a primeira a atingir a marca de um milhão de exemplares vendidos, na década de 1970, bem como teve pelo menos 36 obras, das mais de 40  que escreveu, censuradas pela Ditadura Militar por conta dos temas de seus escritos, principalmente, homossexualidade feminina e erotismo. Morreu aos 69 anos, em São Paulo.

Cassandra Rios: a Safo de Perdizes, de direção de Hanna Korich, é um documentário de 2013, que traz depoimentos de pessoas que participaram da vida da autora de alguma forma.

Previous Nada é mais triste que um gay de Direita...
Next Brendan Jordan: A diva que você quer copiar!

1 Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *