Maioria nanica

Maioria nanica

Levante-se, maioria, você foi conclamada! É hora de dar um basta, de mostrar quem manda. É hora de preservar a família e acabar com essa ditadura da minoria. É preciso correr ou eles acabarão com o país! Não se reproduzem e ainda querem comer as crianças. São porcos que chafurdam na merda, satisfazendo-se com isso. É preciso reagir, maioria! É preciso silenciar essa minoria, pará-los de alguma forma, aniquilá-los. Avante!

Maioria, maioria… Tão raivosa por quê? Cada gemido de prazer te soa como ataque e você reage como um lobo feroz, babando e mostrando os dentes para esconder sua dor. Estamos em guerra e você está perdendo…

Você diz que a perda é do senso de decência, que a ordem natural e divina das coisas está sendo ameaçada. Sem dúvida, é isso mesmo. Não é natural que as famílias que pregam o amor nas igrejas aos domingos expulsem seus filhos de casa na segunda. Não é decente que um menino seja morto pelo pai por pancadas, porque “tinha um jeitinho”. Não há sentido em que um assassinato motivado pela rejeição da própria sexualidade seja reduzido a “crime passional”. É chocante que um candidato à presidência não tenha pudor de ameaçar uma parcela da população na TV aberta, e mais ainda que se encontre alguém para aplaudi-lo.

Por agarrar-se ao passado, a maioria está perdendo amigos, pais, filhos e irmãos. Está perdendo a razão e se expondo ao ridículo, em uma guerra que não tem como vencer. A homofobia no Brasil não poupa nem os héteros, que pagam com sangue quando um abraço de irmãos é confundido com viadagem. Está feio, está ridículo. Uma bizarrice tamanha, que termina ou por ser bater ou criar gigantes imaginários, para negar aos outros algo que deveria ser a base de todas as famílias: o amor.

Eu tenho medo. Cresci com a paranoia de que qualquer risinho numa sala em que eu estivesse era por minha causa. Cresci tentando mudar a minha voz, segurar a minha mão e controlar o meu andar. Cresci sabendo que era diferente e que nunca seria tratado como igual. Cresci ciente de que deveria fazer o máximo de esforço para não incomodar, não desrespeitar, e se possível até me desculpar pela inconveniência de existir. Superei tudo isso para não ficar maluco ou me matar. Foi ótimo, gozei horrores. Porém, agora volto a me sentir como aquele menininho amedrontado.

Tenho medo de virar estatística, de ter a minha foto publicada no jornal. Não por causa de um livro lançado ou de uma conquista qualquer, mas pela notícia da minha morte. Tenho medo que a foto do meu corpo seja usada para chocar uma meia dúzia e fazer rir uma centena. Que na semana seguinte eu seja esquecido porque outra pessoa – sim, pessoa, não GAY, LÉSBICA ou TRAVESTI, como se essas palavras significassem algo não humano – ocupará a manchete. Isso, claro, se algum de nós for digno de nota.

É esse o “amor cristão”? É essa a moral? A vontade da maioria? De qual aparelho excretor saíram essas coisas?

A “família tradicional” está realmente com os dias contados. Chega dessa história de homem bater na mulher porque o jantar não ficou pronto, sair para “catar as da rua” e não abraçar o filho porque “isso não é coisa de macho”, para depois posar de paizão respeitável no churrasco de domingo. Chega de criança abandonada e de “bandido bom é bandido morto”.

Vem, maioria. Pode vir. Eu tenho medo, mas ele só dura até o dia seguinte. Preciso de coragem justamente para evitar que amanhã algum outro menino passe pelo que eu passei. Não posso ter medo, já que sua violência e seu desespero só comprovam que essa guerra está perto do fim.  Infelizmente, essa batalha é injusta e o único sangue derramado é arco-íris. Contudo, a cada gota purpurinada de nosso sangue, de nossas lágrimas ou de nosso suor, você se enfraquece. Você caga pela boca e nós gozamos pelo cu. Vem, maioria. Vem. Nós temos amor.

Nessa guerra, perdemos todos. Continue vomitando seu ódio e cuspiremos cor. A única coisa que você reproduz é a ignorância, e assim vai ficando cada vez menor, mais nanica. No fim, é a maioria que sairá vencedora, e você ficará perplexa ao perceber que não faz parte dela…

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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