Juventude infectada


Em Juventude Transviada (1955), o muso James Dean encarna a rebeldia juvenil e aquela crença que todo jovem parece ter: a da própria invencibilidade. Foi isso que o transformou em ícone e fez sua morte prematura ser ainda mais impactante. James tinha apenas 24 anos, era muito novo para perder a vida. Eu tinha a mesma idade quando me tornei soropositivo e a minha juventude mudou para sempre.

O crescimento na taxa de infecção por HIV entre os jovens é uma tendência mundial, e parece refletir o “complexo de super herói” dessa população. Nossa juventude, que deveria ser transviada, aproveita a vida ao máximo, já que esse tempo e esse vigor tem dia para acabar. De certa forma, é hoje uma juventude infectada.

Existe tratamento e nós, brasileiros, temos sorte de contar com um programa de assistência bastante eficaz, mas as questões psicológicas são mais tumultuadas. Eu talvez esteja parecendo fatalista ou deprimido, mas não é o caso. Acredito que o impacto desse diagnóstico seja transformador para todos, mas a cara do HIV hoje em dia é muito diferente da que eu vi nos anos 90. Não há ídolos como Renato Russo, Freddie Mercury e Cazuza sendo vítimas da AIDS, e o tratamento permite conviver com o vírus sem indicadores externos da infecção. Isso é ótimo, mas transforma a AIDS em uma doença invisível.

O preconceito ainda é grande e o “fantasma do HIV” ronda a mente de todo jovem gay, mas a nova geração não parece temer a doença. Não posso falar pelos outros, mas lembro que receber meu diagnóstico me fez pensar em todas as coisas horríveis que eu tinha visto e escutado sobre a doença quando era criança, e que formaram o meu conceito do que é AIDS. Eu acho óbvio que cada pessoa reaja à sua maneira, mas suponho que para os jovens de hoje o “fantasma” seja o estigma, muito mais do que algo com uma cara definida.

Já disse aqui que não tive a oportunidade de vivenciar a rejeição por ser positivo, pelo menos no departamento amoroso. Sempre que revelei minha sorologia para algum paquera, o caso continuou depois de explicações básicas sobre a doença e a prevenção, e isso sempre me espantou. Claro que fico feliz também, mas acho que aquela cara sinistra da “AIDS dos anos 90” nunca sairá da minha cabeça.

Recentemente, conheci um rapaz que me revelou sua positividade na maior naturalidade. Depois disso eu me revelei também e conversamos sobre, falando inclusive dos medos e problemas, mas ele demonstrou uma coragem e um desembaraço que eu não tenho. Isso, e contando também com minhas experiências de “sair do armário” sobre a doença, levam-me à conclusão de que os avanços científicos e as informações sobre a doença estão diminuindo o terror que ela causa, o que é muito bom. Porém, eu fico pensando se o outro lado dessa moeda não seria o aumento das infecções.

Se ninguém mais se infectasse, imagina-se que o vírus morreria com seus hospedeiros em algumas décadas. É um cenário fantasioso e que não resolveria a questão de maneira eficiente, mas é lógico que a prevenção ainda é a melhor medida de controle.

Não sei se nossos jovens precisariam “levar um susto”. Talvez alguma campanha mais incisiva desse conta do recado. O fato é que ninguém é invencível, então precisamos tentar nos proteger da melhor forma possível.

Leia Lado Positivo quinzenalmente em Os Entendidos, e nos acompanhe em nossa fanpage. Para mais divagações sobre a vida com o HIV, recomendo a página Eu e ele.

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