Carta Aberta de um Negro Homossexual


“Além de preto, é viado”:  a primeira vez que ouvi foi um choque. Um estrondo ecoado na minha sala de aula do ensino fundamental, por uma voz desconhecida ao mesmo tempo em que conversava com algumas amigas. “Além de preto, é viado!”. Eu ouvi e me virei para ouvir o que estavam falando de mim, sobre minha identidade. E me calei.

Já em casa, depois do episódio, deitei-me na cama e refleti sobre ser preto e também viado, como haviam gritado. Com certo receio liguei o computador e fiz breve pesquisas sobre o que significaria fazer parte dessas duas minorias. E encontrei coisas como: “Preto e viado, qual dos dois é pior ser?”, o que não ajudou a solucionar minha dúvida.

Em minhas primeiras pesquisas, encontrei muitos textos, frases, citações preconceituosas e todas me deixam, automaticamente, muito assustado. Depois cheguei a conclusão de que ser preto e viado não eram boas coisas por conta do convívio escolar e internet, então procurei outros espaços, aqueles que eu tinha acesso na época: desenhos animados, novelas, quadrinhos, telejornais, espaços familiares… Em busca de um afirmação positiva sobre ser negro e gay. Pro meu desconforto, descobri que esse referenciais também não existiam em nenhum desses lugares. Eu não existia para o mundo. Queriam que eu continuasse não existindo.

O resultado disso é passei a recusar a me enxergar sob esse duplo rótulo e procurei assiduamente maneiras de não ser nem gay e nem negro. Comecei a impedir que meus cabelos crescessem rebeldes e crespos, e tentei ao máximo esconder minha homossexualidade. Mas mesmo assim, ser preto e ser viado tomavam muito espaço em minha identidade, suprimir aquilo não era fácil, era doloroso. Até que a represa estourou.

“Além de preto, é viado” a sociedade me cuspiu até que ferozmente respondi: “PRETO E VIADO SIM”. Na primeira vez que proferi essas palavras eu percebi que olhos medrosos, não eram mais os meus. Foram eles que sentiram medo! Eles não esperavam que eu resistisse, mas eu resisti e gritei de novo: PRETO E VIADO, fazendo-os recuar. A convicção da minha identidade os calou.

Negros são chacinados pela polícia diariamente. Laços homoafetivos reprimidos cotidianamente até com força fatal. Tudo com aval da sociedade, que afia a lança dos meus assassinos toda vez que profere um ato racista ou cisheteronormativo. E quando o mundo parece contra você, descobri que ter força mesmo assim para declarar-se negro e gay nessa sociedade pode ser um ato de resistência intimidador.

É um peso ser alvo de dois preconceitos, mas é com esse peso, o peso da aceitação da minha negritude viada que irei contra-atacar. E repetirei quantas vezes for necessárias que sou negro e gay, sim! Até porque ainda não me vejo representado nos espaços, nas mídias, mesmo tendo continuado a procurar referenciais de representação. O que não tenho dificuldade de achar nesses meios é somente o escárnio.

Por isso, convido todos negros e/ou gays a ocuparem os espaços, a ocuparem o Centro, a gritarem sua identidade. Vamos nos unir, pois nossa auto-aceitação os assombra. Eles levaram muito tempo para esconder nossas vivências, e nem mesmo na escola aprendemos sobre o povo negro, o ensino histórico continuacompletamente eurocêntrico e as aulas de sexualidade são todas voltadas a relações hétero. Nossas oportunidades não são as mesmas, insistem em nos excluir nos espaços de trabalho, mas nós existimos! Vamos reocupar nossos espaços! E se eles tem a lança do preconceito e exclusão nós devemos usar nossa identidade como escudo e a nossa persistente existência como arma. Munidos delas eles não vão conseguir me calar!

O choro é livre.

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