AIDS S/A


Eu fui colocado em um novo tipo de armário quando abri o envelope com meu diagnóstico “Positivo para o HIV”. Já tinha passado por todo o ritual de assumir minha sexualidade para a família, e não estava mais habituado a esconder um segredo, então estranhei.

Daquele momento em diante, eu sabia que existiria um outro dado meu que as pessoas gostariam de saber, sabe Deus porquê. Eu acho que tanto a informação sobre minha homossexualidade quanto a informação sobre minha sorologia só devem dizer respeito aos meus parceiros.  E isso pelas mesmas razões, o preconceito e o estigma, como se eu valesse menos por ser gay ou positivo.

Aquele envelope foi meu convite para uma “sociedade anônima”. Aqui, nesse espaço quinzenal para falar do HIV, eu uso um pseudônimo porque tenho medo da reação das pessoas se mostrasse o meu rosto ou o meu nome. No mundo real, onde não eu posso escondê-los, o que eu escondo é a doença.

Recentemente, eu conversei com os editores do site sobre os rumos dessa coluna e a resposta do público. Dos vários e-mails que a página recebe, já teve casos de alguns virem com um “a/c lado Positivo” no campo de assunto, com leitores da coluna elogiando ou apenas querendo dividir suas experiências. Muitas vezes são histórias dolorosas, mas mesmo que eu seja uma “voz sem rosto”, ainda sou considerado melhor do que um que julga.

No último post, eu falei sobre o aplicativo Secret e o medo associado ao HIV, e por isso recebi uma mensagem do administrador da página Eu e Ele, que recomendo aqui. A página fala sobre o viver com o vírus e sobre a opressão que sofremos, e achei muito pertinente o comentário de que poucas pessoas curtem a página por medo de se verem associadas ao HIV. É burrice, mas parece que as pessoas temem ser “acusadas” de ter AIDS se em sua lista de likes constar uma página sobre o assunto. Preferem as páginas de piadas e cantoras que não comprometem ninguém.

Sinto isso aqui também. Não quero dizer que meus textos são ótimos pois quem tem que achar isso ou não, é quem lê. Mas vejo muito menor engajamento com essa coluna do que com outras aqui do site. Parece que as pessoas não podem compartilhar ou comentar os textos daqui e por isso acessam silenciosamente, escrevendo de forma privada se  caso precisarem muito falar alguma coisa.

Não estou julgando, eu entendo. Mas acho uma bobagem porque se o leitor em questão for positivo, não será curtir ou não uma página ou texto que vai curá-lo. Da mesma forma, uma pessoa soronegativa pode se interessar pelo tema, pesquisar, ser solidária a um amigo doente, qualquer coisa!

Eu me sinto parte de uma “sociedade anônima” porque minha condição não é aparente, então fica impossível saber quantas pessoas como eu estão dividindo espaço comigo em um ônibus ou trem, por exemplo. A homossexualidade não passa por isso por causa do tal “gaydar” que faz a gente reconhecer um ao outro no shopping, mas não existe um “Aidar” para apontar se um cara é portador ou modelo.

Talvez seja por isso que as pessoas me escrevem. Assim como eu, elas saem na rua todos os dias sem conseguir reconhecer seus iguais, sem ter alguém para dividir, conversar, rir, chorar… Por mais que tenhamos amigos para dar um suporte, esse é o tipo de experiência que só quem vive conhece. O problema é que quem passa por isso também conhece o medo da discriminação e por isso se esconde, o que torna impossível saber em quem confiar. É algo que se alimenta em círculos.

Já cheguei até mesmo a ter umas paranoias em eventos sociais, pensando se era o único positivo do recinto ou se por acaso todos os outros eram também e eu não sabia. Será que se eu me levantasse e gritasse um “tenho Aids” bem grande, os outros “sócios do clube” gritariam “eu também”? Tenho minhas dúvidas, mas quem sabe um dia…

Leia a Lado Positivo em quintas alternadas, aqui n’Os Entendidos. Acesse também a página Eu e Ele.

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