O medo da AIDS não é segredo para ninguém!


Aparentemente, o “tema da semana” por aqui é a incrível capacidade destrutiva e autodepreciativa dos LGBT. É fantástico como a desunião nessa comunidade é única, ao bastar que a menor oportunidade para que demonstremos o quão pouco pensamos de nós. Eu até gostaria de ter uma opinião mais otimista ou levar mais fé em alguma mudança, mas pelo menos no que concerne o estigma do HIV, não consigo.

Qual é o motivo de eu me manter anônimo aqui no site, um espaço que curto e que poderia até ajudar na minha carreira? Não devo nada a ninguém e eu não sou a última pessoa da terra por ter contraído HIV. Deus sabe o quanto me custa conviver com os remédios e o medo, e por isso acho que ninguém tem o direito de me discriminar por causa disso. Porém, as pessoas não pensam dessa maneira.

Nessa semana eu conheci o aplicativo Secret, que serve para amigos e amigos de amigos compartilharem segredinhos anonimamente. É bem bobinho, mas divertido. Na maioria das vezes, as confissões eram fantasias sexuais em termos chulos, o que rendeu boas gargalhadas na festa em que eu estava, até que eu vi um “segredo” que dizia “pessoa X está passando AIDS para as pessoas”. Ali acabou a graça para mim.

O aplicativo permite comentários e o que se seguiu foi um show de horrores, com gente desinformada falando besteira. Antes de tudo, declarar o status sorológico de alguém é crime e mesmo que não fosse, trata-se também de difamação. Sem contar que pode ser uma calúnia e de qualquer maneira é uma injúria, então só podemos concluir que escrever isso é burrice. O aplicativo é uma coisa simples, que perdeu a graça por causa do mau uso dos “amigos”. Estou falando dessa questão do HIV porque foi onde “meu calo apertou” e eu vi muita falta de informação mesmo, com pessoas afirmando coisas sobre a doença e sobre soropositivos que são muito preocupantes. Com as formas de contágio e prevenção listadas ali, não é de admirar que as taxas de infecção estejam em alta, mas a “lama” está muito mais densa.

Há “segredos” com fotos de pessoas e denunciando traições, além de coisas infantis como dizer que alguém cheira mal. Casos piores banalizam estupro e incesto, e outros perguntam sobre o tamanho dos pênis de conhecidos, ridicularizando-os se a resposta for decepcionante ou se o rapaz em questão for passivo.

Tal como acontece nos comentários de notícias da internet, a máscara do anonimato (por sinal, muito frágil, já que qualquer processo judicial vai pedir a quebra de sigilo dos usuários) esconde nomes e rostos, mas revela o que existe de pior no ser humano. Sinceramente, posso contar um segredo? Vocês tem medo de pegar a minha doença e não percebem que estão com uma pior. Deus permita que eu nunca seja infectado por vocês.

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