Carta aberta à balança


Prezada balança, sei que você provavelmente me odeia mas preciso desabafar. Depois de nosso encontro, no ano retrasado, não fiquei nada bem com sua informação. Machucou muito, tudo o que foi dito.

Como sempre, você estava incontornável e me deixou falando pra paredes por semanas! Houve momentos em que eu queria voltar e te bater, mesmo sabendo que a culpa não é inteiramente sua. Remoí por muito tempo aquela informação e acho que finalmente encontrei paz depois da sua desfeita. Na verdade, até tinha esquecido disso tudo nesses últimos meses de nosso hiato, mas, infelizmente, esbarramos-nos semana passada naquele consultório e tudo voltou. Não à tona, mas quase. Por pouco não cedi e me entreguei à gravidade desse prematuro encontro.

Você pode não saber, já que te ignorei por tanto tempo, mas agora sinto que realmente não preciso mais de você. Tenho passado muito bem, na verdade. Estou longe da perfeição que pretendia chegar com tua ajuda, mas venho me sentindo bem mais confortável comigo mesmo. Não digo isso pra te agredir, apenas me dei conta disso instantes depois.

Durante o período que ficamos afastados, aposto que você ficou calculando quantas vezes oscilei pelos meus, típicos, altos e baixos. E tem razão, mas o que você não sabe é que e a cada ciclo desses uma parte de mim desistia de querer te agradar. Longe da sua presença os meus melhores companheiros foram o ingrato espelho e a minha insatisfeita consciência. Briguei muito com eles, mas pelo menos com eles dá pra dialogar. Acabei percebendo que talvez seja esse o problema contigo, inflexibilidade. Nunca ceder é um direito teu mas descobri que, simplesmente, ninguém é obrigado. E eu certamente nunca fui. Apesar de ter passado anos achando que sim.

Quando me lembro de todas as promessas que fiz, dos desaforos que engoli, dos maus bocados que me coloquei por sua causa…

Só eu sei o quanto eu amargurei cada um dos nossos encontros. Cada olhada tua era capaz de me me fazer me sentir tão menor, tão menos atraente, tão menos interessante, tão menos eu! Através dos teus olhos e monólogos eu descobri um pesar imensurável, mas também conheci vitórias, hoje, indescritíveis.

Livre do teu julgamento, acabei me perdendo por um tempo, sem saber o que era certo ou o que era melhor não ter feito. Foram dias difíceis e confusos, até começar a aprender a balancear meus próprios atos. Não sei quando, mas acabei conseguindo. Um dia, na companhia do espelho encontrei sincero aconchego. Por certo que tal sinceridade não é confiável já que naquele reflexo havia rachaduras, mas a partir desse dia a Luta terminou. Acredito que ninguém saiu vitorioso, mas as batalhas cessaram. Mudei alguns hábitos e retomei outros – principalmente aquele com que mais implicavas. Fiquei mais leve. A ponto de anular o peso das brigas contigo.

De vez em quando surgiam momentos em que queria correr pra te ver e perguntar a sua opinião, mas resisti e procurei um profissional. Alguém mais humano. Confesso que foi a melhor coisa que poderia ter feito. Graças a ela descobri que você só me contava meias verdades e que a tua lógica era cega a alguns benefícios que conquistei durante nosso tempo junto, a custo a da minha falha disciplina. Tudo isso naquele dia mesmo, lá no consultório, onde a cientista me fez perceber tudo o que você era incapaz de me dizer. Depois que saí de lá, mesmo com o choque do nosso encontro, senti-me bem. Num alívio que há muito sentia. Confirmei vários dos meus palpites e aliviei vários dos teus dogmas.

Talvez duvides que estou verdadeiramente feliz com o meu estado, e é aí que jaz o seu erro: finalmente entendi que a conformidade ou má vontade com as tuas notações cabem a mim. Não preciso mais suar a camisa para ganhar a tua aceitação. O estado no qual me encontro é fruto das decisões que eu aceitei tomar, e se amanhã, depois de conversar com meus novos amigos, eu resolver mudar de ideia eu tomo as atitudes cabíveis e possíveis. Não te devo mais satisfações e nem preciso do seu perdão.

Passar bem! Espero que agora ponderes sobre toda a pressão que você depositou em mim. Houve bons momentos enquanto durou, e valeu por ter contribuído com a infelicidade que hoje vejo definhar!

Sem pesar de alma, te digo adeus!

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