ORDINÁRIO!


Seis e meia da manhã e o despertador dispara. Mais quinze minutinhos, água gelada na cara e um café forte. Metrô lotado, com todo mundo espremido igual a sardinhas em lata, e sem nenhum carinha gostoso para distrair a viagem.

Nos corredores da estação mal dá para andar, e a promessa de ar fresco naquela luz ao fim da escada é desfeita em uma tosse seca, acompanhada de lágrimas de intoxicação. Por que essa cidade é tão suja? Pior do que a poluição do ar, somente a sonora. Tantos carros e tantos ônibus levando tanta gente, que ocupam as janelinhas de vidro espelhado dos prédios comerciais que lembram pequenas gavetas, cada uma guardando outras centenas de pessoas.

“E se de repente um ônibus perdesse o controle e me atropelasse, junto desses outros trinta ou quarenta pedestres esperando para atravessar? Meia dúzia de colegas de trabalho lamentariam e o serviço seria um pouco mais lento nesse dia, mas a maior consternação viria dos motoristas inconformados com o nó do trânsito. “, foi o pensamento de Rafa.

Em poucas horas, a via estaria liberada e outras dezenas de pessoas  nos substituiriam, como se carros, ônibus e vagões não conseguissem parar de vomitar gente para ocupar cubículos.

“Somos muito ordinários.”, concluiu o rapaz.

As horas no serviço se arrastavam. Ele, que crescera se imaginando tão especial, como se estivesse destinado a fazer apenas o que quisesse e gostasse, não conseguia tolerar essa existência. Sendo fruto da geração que se via como extraordinária – com expoentes que se tornavam popstars com um simples vídeo no YouTube – e merecedora da felicidade fácil, ele se frustrava. Não conseguia aceitar a invisibilidade por trás do monitor, do telefone, da janelinha de vidro… Ele, que deveria ser tão especial, era apenas mais um peão…

Ao fim do expediente se inicia uma nova jornada. As ruas estão cheias, mas de oportunidades. A primeira surge com um segurança safado que dá um apertão nada discreto no pau, indicando com o olhar um corredor isolado do prédio. Ninguém se apresenta e isso é parte da graça. O barulho dos passos de centenas de pessoas que estão passando atrás da porta é excitante também, mas ajuda a abafar os gemidos. Ele, o segurança, é só o primeiro.

Recomposto, Rafa volta para a avenida. É cedo para voltar para casa. Com R$ 15,00, garante sua entrada no cinemão do centro – os poucos cinemas de rua que restaram são os pornô – e sorri. Nessa hora, com tantos pais de família engravatados procurando “relaxar” depois do trabalho, o sexo exibido na tela nem se compara ao que é feito nas poltronas. Mãos, bocas, bundas… Altos, baixos, magros, gordos… Aqui se é até mais anônimo do que no escritório, mas a promessa de gozo a cada contato faz de todos estrelas. Ninguém fala nada porque isso é tacitamente proibido. O segredo é fazer cara de mau e olhar de rabo de olho com indiferença estudada, para ver se por acaso alguma outra sombra olha assim para você também. E quando os olhares se cruzam, são desviados e voltam a se cruzar, a cara de mau continua e se transforma em apertões viris.

Beijos, chupadas, gente em volta… Um cara quer participar enquanto o outro só quer olhar. De onde vieram tantos homens? Um círculo de cobras excitadas prontas para dar o bote. Ha, ha! Quem é a estrela agora? Podiam até interromper o filme. Oito horas e é preciso mudar de cenário. O cinema fecha junto das gravatas, que precisam estar impecáveis quando encontrarem as esposas. É cedo para o nosso astro, que prefere dar um passeio no bosque. Vai que aparece um lobo mau?

Entre as árvores, a adrenalina é maior. O silêncio, a escuridão e as caras de mau também estão presentes, mas agora há o risco real de “levar uma dura” da polícia, o que seria muito diferente do tipo de “dura” que se leva por ali. Um cara interessante passa correndo e logo interrompe o “projeto fitness” para viajar pela língua habilidosa de Rafa, que quer mais. Nenhum dos dois tem camisinha, então nosso herói pede uma para outro rapaz que assistia da árvore mais próxima. “Eu até tenho, mas quero te comer também.” Ah, que jeito inusitado de fazer amigos!

Enquanto os três se embolam em suor, o de trás sussurra no ouvido de Rafa: “Ordinário!”

Agora, ele é. E em um sentido felizmente mais próximo do “É o Tchan” do que pela manhã, quando era apenas mais um na multidão.

Em casa, Rafa se joga na cama sem nem tirar toda roupa. Quantos peitos lisos nesse aplicativo! Será que os rostos valem a pena? Esse não, esse não… Esse está mostrando a cara, mas é gordo. Como é difícil escolher! Talvez o problema seja o aplicativo, vamos trocar. Agora só há rostos! Quem vê cara, não vê tamanho de p… Ah, esse é bonitinho! Não, não… like, não, like, like, não… It’s a match! Hahaha, que legal. É, pelo menos essas coisas dão um up na autoestima. Mensagem? Não, já chega por hoje. Bateu preguiça. Se esse daí não estiver a fim amanhã, é só arrumar outro.

E assim, Rafa – o nosso herói – foi dormir. E naquele instante nebuloso pouco antes do sono, pensou em como era injusta essa vida. Em como era triste ser mais uma sombra, mais um de milhares. Uma peça tão fácil de substituir, sem nada de singular. Um operário. Um peão. Ordinário.

Sim, ele só se enxergava assim no tocante ao trabalho. E se alguém denunciasse que sua vida extraordinária era, na verdade, EXTRA ordinária… Ele riria. Haters gonna hate…

***

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