“Sexo sem culpa” ou “Todos precisam tomar remédio pro HIV?”


Recentemente, a Organização Mundial de Saúde teria recomendado que todos os “homens que fazem sexo com homens” tomassem medicamentos antirretrovirais, como medida de prevenção do HIV. Não foi bem assim, mas logicamente que a notícia causou polêmica. Três décadas  se passaram desde o início da pandemia. Seria possível que os homens gays voltassem a ser considerados “grupo de risco”? E se considerássemos essa recomendação como preconceituosa, não estaríamos “tapando o sol com a peneira” em relação a uma questão que ainda afeta nossa comunidade? Se a infecção pode ser evitada com um único remédio, não teríamos o direito a utilizá-lo como medida preventiva? Esse é o assunto da Lado Positivo de hoje.

A última edição da revista New York traz na capa “Esquecendo o HIV – uma pílula chamada Truvada pode bloquear a infecção. Mas não pode apagar facilmente décadas de trauma sexual”. A reportagem destacada se chama “Sexo sem medo” e fala do impacto cultural da profilaxia pré-exposição na comunidade gay de Nova Iorque, que devido a seu protagonismo nos primeiros anos do estouro da AIDS, seria o campo de estudos ideal.

A droga – que faz parte da lista de medicamentos oferecidos gratuitamente pelo SUS aos pacientes soropositivos do Brasil – tem uma eficácia estimada em 99%, e como exposto na matéria, revolucionaria a forma como fazemos sexo. Pela primeira vez em décadas, a culpa que sempre assombrou as relações homossexuais, pelo preconceito e pelo fantasma da AIDS, pode ter uma cura.

Na minha última coluna falei sobre o filme The Normal Heart, baseado na peça homônima de Larry Kramer. O cenário é a Nova Iorque do início dos anos 80, quando Kramer viu sua vida e a de seus amigos entrar em colapso logo após o boom de liberdade dos anos 70. Não por acaso, o escritor é uma das vozes contra o uso indiscriminado do Truvada, causando polêmica entre seus iguais:

“Qualquer um que tome um antirretroviral voluntariamente todos os dias deve estar ruim da cabeça. Para mim, é covardia tomar o Truvada ao invés de usar camisinha. Você está se drogando com algo que é um veneno para você, e que diminui sua energia para lutar, para se envolver, para fazer qualquer coisa.” – Larry Kramer

Para os defensores do Truvada, Kramer exagera e luta na contramão da história. O remédio é visto como uma “pílula anticoncepcional gay”, com a mesma capacidade libertária que os métodos contraceptivos deram à mulher. Ao analisarmos de forma análoga, parece haver um embate entre os irmãos mais velho e mais novo: os que viveram o auge da epidemia e consideram o uso do remédio como um desrespeito aos que morreram sem chance de proteção e os que cresceram com esse fantasma e agora estão ávidos para livrar-se dele.

Porém, essa não é a única objeção. Há o medo de que sem a ameaça da AIDS haja uma explosão de barebacking – o sexo sem camisinha – , o que aumentaria as taxas de infecção de outras DST, como a Sífilis. Além do mais, se o remédio não for tomado regularmente, há grandes chances de variações resistentes do vírus se alastrarem rapidamente e inutilizarem um braço importante do tratamento.

Outro ponto de discussão é a exploração comercial do medicamento pelo laboratório Gilead, que agora teria seu mercado consumidor expandido para  todos os gays teoricamente. O programa brasileiro de distribuição gratuita de remédios ainda é singular, e por isso mesmo os lucros estimados para a venda de uma “pílula anti-AIDS” seriam astronômicos.

Para Richard Parker, diretor presidente da ABIA – Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS, são os custos que vão limitar sua utilização em todo o mundo:

“Em muitas partes do mundo, nem as pessoas já infectadas têm acesso aos medicamentos. Ou seja, não é necessariamente uma tecnologia que poderá ser usada amplamente como resposta à epidemia. A camisinha continuará a ter um papel central nisso. Porém, para pessoas que não estão usando preservativo regularmente, o remédio pode ser muito importante.”

Como sempre acontece em situações extremas, a corda arrebenta para o lado mais fraco. Não é difícil que um homem gay regularmente empregado seja informado sobre o tratamento e possa adquirir o medicamento, mas as maiores taxas de infecção no mundo todo são entre os jovens, que muitas vezes não tem situação financeira estabilizada. Especificamente nos Estados Unidos, a situação de vulnerabilidade é ainda maior na população negra. E com uma nova forma de prevenção disponível, provavelmente haverá ainda mais um estigma em relação aos novos infectados.

Porém, há uma fatia do mercado que parece pronta para usar o Truvada: os casais sorodiscordantes. Para muitos casais homossexuais em que um dos parceiros é soropositivo, a pílula pode trazer uma sensação de segurança e liberdade nunca experimentada. Isso não pode ser ignorado.
Não podemos fingir que o HIV não é uma questão gay. Somos protegidos por esse fantasma e pelo acesso à informação, pois muitos heterossexuais ainda parecem se considerar imunes. Além disso, estamos expostos pela promiscuidade que parece tão cara à cultura masculina. Na minha opinião, qualquer aliado é bem vindo.
P.S: Lamento muito a notícia do falecimento dos ativistas e cientistas que se dirigiam a Conferência Internacional sobre AIDS e foram vítimas do atentado ao avião da Malaysia Airlines.  Independente das teorias de conspiração sobre os interesses da indústria farmacêutica nessas mortes, vidas se perderam. Para piorar, eram vidas que faziam a diferença para o bem.
Leia Lado Positivo em quintas alternadas, aqui n’Os Entendidos.

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