Ai cacete! Dá para mudar de assunto?


Eu podia estar malhando, me depilando, ou vestindo uma camisetinha justa com cuidado para não desmanchar o topete, antes de tirar a selfie sensual pro perfil do app. Podia estar na praia com a minha sunga importada porque a marca dela – tanto a da etiqueta quanto a do bronze – é HOT! Eu podia até estar exibindo o pau na cam, mas estou aqui, escrevendo esse textículo (texto + ridículo). É nisso que dá falar tanto de viadagem!

DandoPintaSloganComeçando com o meu e terminando com o de ontem, já toquei – y otras cositas más – em muitos pênis. Grandes, pequenos, grossos, cabeçudos, veiudos, babões, moles, duros, meia bomba, pentelhudos, lisos, macios, pesados, sacudos… Tenho a certeza que meu urologista ainda precisaria de décadas para me alcançar!

A questão é: por que os homens só pensam em – ou com – suas picas?

Sei que somos condicionados a isso. O machismo, a sociedade falocêntrica, a construção da masculinidade, hierarquização, blablablá. É a disputa de quem mija mais longe, a “zoeira” no vestiário com quem tem o pau menor, o policiamento sobre quem está “manjando” ou não, etc. Na comunidade gay, que goza – oi? – da criação predatória que é aplicada a todos os homens, temos a radicalização disso no “quantos cm?” que sempre piroc… ops, pipoca nos chats. Afinal, já que o mercado é grande, qualquer probleminha pode ser resolvido no perfil seguinte, não é?

A identidade gay se define basicamente por duas coisas: sexo e discriminação. É claro que temos uma cultura riquíssima, mas no fim das contas, a única coisa que une todos os tipos de homossexuais é seu desejo por pessoas do mesmo sexo, e a exclusão social que essa “infração” provoca. É devido a esse policiamento do desejo que criamos complexos, angústias e fobias. É através dele que as religiões tradicionais e os grilhões sociais nos oprimem, ao conseguir que a nossa rejeição comece muitas vezes de dentro para fora.

Faço força para entender. Esses mecanismos, esses comportamentos que parecem gerais em sua superfície, mas que afetam cada indivíduo de formas variadas. É para debater e talvez melhorar isso que eu leio sobre viadagem, discuto sobre viadagem e – que bom – a pratico! Então, por favor, vamos parar de olhar só para seus pintinhos? Obrigado.

Volta e meia, o argumento usado para desqualificar o discurso da coluna é alguma variação de “recalque por falta de pau”. Ora, eu sei que cutucar essas questões pode gerar revolta e espero sempre que o debate seja enriquecedor, mas acho muito pobre que minimizem esses assuntos e transformem tudo em “falou isso porque quer pegar hétero” ou “escrever é fácil, quero ver pegar pintosa”, ou ainda um “ficou magoado porque o cara não quis”.

Sim, tudo isso já me foi imPUTAdo aqui. Seja com citações e floreios técnicos, seja com gifs da Lindsay Lohan, mas sempre com um objetivo único: reduzir o debate da sexualidade a uma simples “caça por pica”. É a mesma coisa que acontece com textos feministas e com qualquer coisa que tenha a ousadia de questionar o poder do macho. Tudo se torna “papo de feminazi mal comida” ou “mimimi de bicha louca querendo homem”. Menos, né? Homem é bom, mas nem tanto. Além do que, esse é um jeito babaca de reafirmar a própria masculinidade com algo equivalente a apertar o saco e dizer “aqui, ó!”, como se exibir esse grande símbolo de virilidade servisse de palavra final. E tentar se impor na discussão do machismo com um apertão no pau? Saudades coerência! É chover no molhado. Literalmente, escroto.

Algum cara já se recusou a ficar comigo porque brinco de Barbie? Acredito que sim. Alguém já me achou gostoso na boate e perdeu o tesão quando me viu dançando? Oops… I did it again! Só que existe um ditado que diz que “homem é que nem biscoito, vai um, vem dezoito”. E isso é fato. Para cada cara que não me curtiu, vieram outros tantos que sim. E em maior ou menor escala, é assim com todo mundo. Sem contar que eu não desejaria “relacionamento sério” com gay machista e vice-versa, e se for só para sexo o povo não pergunta nem nome, que dirá posição ideológica!

Fala-se muito em respeito e no porquê de homossexuais ainda serem colocados à margem. O primeiro passo para que paremos de brigar e sejamos percebidos como uma comunidade coesa é que respeitemos nossas diferenças de comportamento e de opinião. Para isso, precisamos superar a ilusão de que “ser homem”, ou TER um homem, são algum tipo de prêmio maravilhoso. E principalmente, que valor se mede em centímetros. É esse mecanismo de opressão que transforma o ser gay – em todas as suas manifestações – em algo pejorativo.

Esse texto é um textículo. É ridículo pensar que discussão ganha homem, até porque seria mais eficiente gastar esse tempo fotografando a bunda. É ridículo ter que citar currículo acadêmico ou quantidade de parceiros para validar um argumento. É ridículo que discussões importantes – ainda mais para um grupo tão desunido – se reduzam a disputas metafóricas de tamanho de pênis.

Esse textículo é do caralho, mas é também um pé no saco. Porra, vão transar! É fabuloso. Juro!

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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