Armadura Social


Daí você chega em casa tão cansado que parece até o queniano da São Silvestre! As bochechas doem de tanto sorrir, os olhos ardem com as lágrimas reprimidas e o corpo está cheio de nós de tensão por causa do esforço diário. Montar nossa armadura social é relativamente fácil: é só juntar meia dúzia de referências e fazer cara de lindo. O difícil é carregá-la!

DandoPintaSloganSabe qual é a pior parte dessa história? É que chegar em casa não significa necessariamente que dará para descansar, já que é preciso manter o espetáculo nas redes sociais. Antes de dormir e deixar os problemas de lado, precisamos comentar a novela na timeline, postar aquela fotinho hipster no Insta e dar RT naquele bafo que está trending. E vem a pergunta: a troco de quê?

De amor, é claro. Isso é tudo que buscamos desde o berço, ao entendermos que uma gracinha pode conquistar o sorriso da mamãe, até a vida adulta, onde os likes pedem um pouco mais de esforço. E as cutucadas então? Dão um trabalho…

É máquina 1 na lateral do cabelo, descendo para a barba para deixá-la na mesma altura. O desenho se faz à navalha. Sem barba não dá. Pomada no topete, ar descuidado, camisa P marcando os bíceps e iPhone no bolso. Sorriso pra foto. Hashtag? #VIPnaBalada! Compartilhar no Facebook. Que pele! Graças a Deus Adobe e aos filtros! Ficou boa? Joga pro Grindr! Mais um. Igual. É assim que vamos ficando homogêneos, clones. Mais homos que sexuais. E olha que essa é somente a fachada!

A parte do discurso dá mais trabalho, é preciso estudar e tomar conta do jeito de falar, de andar e de escrever. Coé, fera! Sou ativo, não sou e não curto efeminados – nada contra, só questão de gosto mesmo – porque se quisesse mulher pegava uma de verdade. Para ser respeitado, tem que se dar ao respeito. Ninguém precisa fazer escândalo, ficar causando, é por isso que as pessoas acham que todo gay é desse jeito. Curto minhas paradas na encolha, sem promiscuidade, saca?

É, essa armadura pesa. É o preço que se paga por um verniz de aceitação, um simulacro de respeito ou de repente a foda da semana, aquela que sustenta a autoestima. É óbvio que todos fazem isso. É preciso ter uma determinada postura para falar com o chefe e um jeito especial para os amigos, mas parece que o treinamento dos homossexuais é mais intenso. A cobrança para nos protegermos com essa couraça acontece 24 horas por dia, 7 dias por semana, desde que nos entendemos por gente.

Há quem diga que a chamada “cultura gay” é fútil, com suas divas e seu glitter. Ora, não é de espantar que sejamos tão chegados ao escapismo das pistas de dança, das drogas e do sexo fácil. As viagens, as roupinhas estilosas, o humor sagaz e as demonstrações de refinamento e cultura são parte disso também. Uma resposta à cobrança social do que é ser gay, que transforma a sexualidade em identidade de grupo, categorizando o que é aceitável ou não. Pode parecer que estamos dançando e postando selfies enquanto a boate e o mundo todo explodem à nossa volta, mas quem pode nos culpar?

O tal “verniz de aceitação” nunca foi tão lustroso. Hoje temos revistas gays, sites, personagens em filmes e novelas, livros e festivais de cinema e até alguns direitos civis, ou pelo menos o debate sobre eles. É quase como se fôssemos considerados normais, exceto pela anomalia que é sermos forçados a assumir nossa orientação sexual como marca de identidade. Está mais fácil se misturar e “não levantar bandeiras”, pois muita gente levantou e tomou porrada para conquistar visibilidade anos atrás – aliás, nesse sábado a revolta de Stonewall completa 45 anos. Então, quem está com a razão? O que significa ser gay na época em que isso parece ser aceito, mas só até certo ponto?

Nossa armadura social é uma resposta às cobranças que sofremos. Ela pode ser a couraça que nos protege ou nos aprisiona, ou a camuflagem camaleônica que permite que nos misturemos à multidão. De qualquer maneira, não é por nossa culpa que a vestimos, achemos isso bom ou ruim. Que venha o dia em que seja possível retirá-la, e que a nossa felicidade de Instagram seja real. Sem filtros. Nesse dia, todas as armaduras terão servido ao seu propósito e a batalha estará ganha.shundyPermita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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