Augustina – Dos gostos à virtude…


Augustina de VilleBlanche ou O Estratagema do Amor é um conto do Marquês de Sade, mais conhecido por seus romances “Filosofia de Alcova” e “120 dias de Sodoma”. Esse último o livro que o estigmatiza e estereotipa, como um autor de práticas sexuais consideradas abjetas.

O conto em questão encontra-se na coletânea “O marido complacente”, publicado pela L&PM Pocket e é um dos que mais gosto.

Inicialmente temos a personagem-título, que disserta a favor  das relações homoeróticas femininas, afirmando que tal comportamento deveria ser considerado natural, já que sempre existiu nas sociedades e que não há motivos de preocupações apocalípticas, como o fim da humanidade por falta de exemplares da espécie, por exemplo.

“De todos os desvios da natureza, o que fez mais pensar e pareceu estranho aos semi-filósofos que querem tudo analisar, sem nunca entender nada – dizia um dia a uma de suas melhores amigas a srta. de Villeblanche, de que vamos nos ocupar em seguida -, é neste estranho gosto que as mulheres de certa disposição ou certo temperamento concebem por pessoas de seu sexo. Seja antes do imortal Safo como depois dela, não houve uma só região do Universo, uma única povoação que não tenha nos oferecido mulheres desse estilo. Diante disso, parece mais razoável acusar a natureza de esquisita que a essas mulheres de crime contra a natureza. No entanto nunca cessaram de reprová-las e, sem a ascendência dominadora que teve sempre o nosso sexo, quem sabe se algum cujas, algum Bartole, algum Luís IX não teria imaginado fazer contra essas sensíveis e infelizes criaturas leis fatais, como promulgaram contra os homens que, dispostos na mesma singularidade e por tão boas razões sem dúvida, julgaram poder se bastar entre eles e que a mistura dos sexos, útil a propagação da espécie, bem podia não ter igual importância para o prazer.”

Não é um discurso em defesa da homossexualidade, pois naquele momento Augustina, portanto Sade também, não tinham nem esse conceito e nem as categorias homossexual e heterossexual em mente, como sempre nos lembra o historiador Lenin Campos em seus textos sobre homohistória, mas não deixa de ser interessante que ela leve em consideração a naturalidade desses relacionamentos e argumente com o uso da lógica.

No entanto, é aqui que o conto perde para mim um pouco da força que poderia ter – embora seja completamente compreensível, quando percebemos o que foi dito anteriormente – quando Augustina, ao ir vestida de homem a um baile de máscaras carnavalesco, como sempre o faz, conhece uma menina, por quem se inflama de desejos.

A menina em questão é, na verdade, um rapaz que, conhecendo a fama de Augustina e seu costume de travestir-se no carnaval, veste-se de mulher e estabelece com Augustina um jogo de gato e rato, que faz com que ela o deseje ainda mais.

Após certos desentendimentos e arranjos, ambos se entregam ao amor que passam a nutrir um pelo outro, resultando no outro possível título aventado pelo Marquês – Estratagema do Amor – e que também a faz transformar-se de mulher libertária em esposa virtuosa.

Tal mudança no comportamento de Augustina revela pra mim que, mesmo Sade um “revolucionário sexual”, acaba por reiterar e ratificar certos comportamentos e pressupostos morais de seu tempo e isso se revela ainda mais na categoria em que esse seu texto se encontra no volume publicado pelo L&PM, que é o de “Contos e Exemplos”. Ou seja, Augustina seria, a meu ver, o exemplo de uma mulher que pode se redimir de seus comportamentos, considerados à época desviantes, embora naturais, em favor de uma moral que é alcançada por meio do amor e do matrimônio.

Link para arquivo em .pdf (leitura online e download): Augustina de VilleBlanche ou O estratagema do amor.

Referência: Augustina de Villeblanche ou o estratagema do amor. In: Marquês de Sade. O Marido Complacente. tradução e notas de Paulo Hecker Filho. — Porto Alegre: L&PM, 2002. p. 83-97.

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