A festa é de todos, mas não fui convidado!


Ê, filhão, toma aqui essa bola. Vai pra rua brincar com os outros garotos, você quase não sai de casa! Ué, não quer ver o jogo? É do Mengão, porra! Não é chato. Chato é esse livro que você gosta. Não sabe jogar? Não quer? Como assim vai jogar “queimada” com as meninas? Perna de pau! Esse seu jeitinho… Boneca? Tá maluco, menino?

Vai começar a festa e dizem que ela é de todos, mas é mentira. Sempre me perguntei como seria uma Copa do Mundo se o Brasil não se classificasse, só por curiosidade. O futebol é uma religião em nosso país, então eu tinha um interesse antropológico mesmo, de como seria um período de Copa sem a seleção em campo. Será que torceríamos para os hermanos da Argentina? Será que as grandes lojas fariam as mesmas promoções mirabolantes para vender televisões cada vez maiores? Sempre quis saber. O engraçado é que talvez isso nunca aconteça, mas estou conseguindo as minhas respostas agora.

Vai ter Copa e ela terá coisas maravilhosas. A alegria que só o futebol consegue proporcionar – que eu nunca entendi, mas admiro – e os gringos gatos no Tinder. Entretanto, não vai ter Copa também. As ruas estão menos decoradas, os grafites trazem palavras de protesto e #NãoVaiTerCopa já virou bordão. A “vocação brasileira para a alegria” resiste, mas ninguém está feliz com os abusos padrão Fifa e com aquela droga de Fuleco. No metrô, o constrangimento é palpável quando as estações são anunciadas numa imitação ridícula de narração de jogo. Isso quando não há greve e ele funciona, é claro. Eu, que sempre quis saber como seria se o Brasil não participasse de uma Copa, passo por essa experiência quando o evento é aqui.

O futebol é machista. É parte da identidade nacional e nós celebramos as vitórias em campo como conquistas do país. É a nossa cara lá fora e ela não pode ser efeminada. O juiz que erra é o filho de uma puta, enquanto a bandeirinha bonita precisa voltar para o seu lugar, que seria nas páginas da Playboy. Se ela comete algum erro, é por ser mulher.

Jogadores gays não existem. Mesmo quando um “dá pinta”, precisa mentir e negar o óbvio, sob a ameaça de perder o emprego e o apoio de patrocinadores. Também pudera, nenhuma torcida admitiria um gay em seu time, até porque a zoação não teria fim. Todo tipo de provocação entre torcidas começa com o pior xingamento do mundo, que sabemos ser VIADO. Estranhamente, é esse país machista que adora falar na bunda do Hulk – o que logicamente compreendo.

Não vai ter copa nem para mim que sou bicha e nem para os operários mortos nas obras dos estádios. Os grevistas demitidos e os manifestantes asfixiados pelo gás lacrimogêneo também não foram convidados. Não vai ter copa para as mulheres que ficarão fritando salgadinhos no fogão enquanto os maridos pulam aos gritos por cima dos amigos, espalhando cerveja no sofá. Coitados, eles até gostariam de assistir os jogos ao vivo, mas ninguém conseguiu acessar a internet pagar o preço do ingresso. E ao contrário do que canta a Cláudia Leitte, não somos um. Essa Copa não é de todos, mas talvez seja mesmo a “Copa das Copas”. Pelo menos, serve para cutucar o “gigante” e ver se ele acorda de novo.

Eu sempre fui excluído desse “mundo” porque futebol é “coisa de homem”. E agora, dou risada! Sempre fui motivo de chacota porque nunca consegui driblar ninguém e muito menos marcar um gol, nas raras vezes em que entrei em campo. E diga-se de passagem, não servia nem para goleiro. Sempre fui melhor em brincar de boneca mesmo, algo que ninguém queria me deixar fazer. Porém, não dizem por aí que ri melhor quem ri por último?

Eu que nunca quis uma Copa, agora não vou ter uma. Não é engraçado? Acho que é assim que se sente quem vê afundar uma festa para a qual não foi convidado…maleficent-3Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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