Obrigado, viadagem!


Querida viadagem, acho que começamos com o pé esquerdo. Sei lá, talvez tenha sido por influência da minha família, acho que não estavam preparados para você. Hoje eu vejo que não te entendia muito bem, que sentia certa vergonha. De repente, era só medo. Eu peço que você me desculpe, porque hoje sei que tenho muito a te agradecer.

Obrigado, viadagem. Algumas vezes foi bem difícil. Eu achava que os garotos da escola me batiam por sua causa, mas só porque naquela época ainda não sabia que o problema era deles e não seu. Todo mundo te culpava por qualquer coisa ruim que me acontecesse, então eu acabava por fazer o mesmo e te ver como uma espécie de maldição que carregava. Culpava você pela minha solidão e já conseguia te ver arruinando minhas futuras entrevistas de emprego e, consequentemente, meus sonhos. Desculpa, sempre tive talento para Drama Queen!

Obrigado, viadagem. Esse “tratamento especial” foi duro, mas me deixou mais forte. Fez com que me tornasse uma pessoa melhor, mais atenta às tantas injustiças do mundo e mais afeita a lutar contra elas. É cansativo porque às vezes tenho a impressão de estar combatendo moinhos de vento, a lá Dom Quixote. São sempre as mesmas coisas. Mas aí eu penso que talvez consiga evitar que outro menininho gay passe por algumas das coisas que passei, ou de repente encontre qualquer tipo de conforto nas minhas palavras, e volto a te agradecer.

A verdade é que eu não te escolhi. Não pedi para você ser parte da minha vida e ser usada pelos outros para definir minha identidade. Não pedi para que a rejeição generalizada a você se estendesse a mim como se eu – com todas as minhas qualidades e defeitos – fosse apenas você e nada mais. Sempre odiei isso, mas hoje me sinto grato e quero dizer que te escolheria. Não acredito em reencarnação, mas se alguém perguntasse se numa próxima vida eu gostaria de voltar viado de novo, eu responderia simplesmente “e eu ligo sem cartão?” que sim.

Se não fosse por você, viadagem, eu não poderia dançar com a mesma liberdade, sem me preocupar se alguém acha que imitar a Beyoncé é algo pouco masculino. Eu teria que “segurar a mão” e conter os meus gestos, porque quem não é viado precisa andar, falar, pensar e se mover de uma maneira determinada, ou então perde o “privilégio”. Aliás, sem você nem teria noção dessa palavra e do que ela realmente significa, porque provavelmente viveria toda minha vida dentro de uma bolha de “direitos”, sem pensar que existe um mundo além do meu umbigo. Pasme, eu talvez até achasse apropriado puxar uma mulher pelos cabelos para exigir que ficasse comigo e não saberia ouvir um “não” como resposta!

Obrigado, viadagem. Você libertou todo o meu prazer e me ensinou que ele pode vir de cada canto do meu corpo e não só do meu pau. Ensinou-me que não é ele que me faz homem. Você me deu poder, porque falar de você ou expressá-la em gestos cotidianos ganharam peso político. Um simples beijo meu, por sua causa, é um ato público de resistência! Claro, nem tudo é perfeito. Acho que por sua causa eu fiquei vaidoso demais, me preocupando muito com o meu corpo – malhar é chaaaato – e minhas roupas. É que você tem uma certa “imagem pública”, por assim dizer, e às vezes eu me sinto pressionado a mantê-la.

Estou te agradecendo viadagem, porque nem todos os viados se sentem assim. Alguns continuam com vergonha, fazendo de tudo para te matar dentro deles, como se ainda fossem meninos escondidos no armário. Reproduzem opressão e chamam de “questão de gosto” e acham que ser ativão-malhadão-fodão-discretão é alguma marca de superioridade. É até engraçado porque eles não enganam ninguém. Você, marota, se revela em cada topete e peitinho depilado. Quanto mais tentam esconder, mais você se mostra.

Por outro lado, vejo crescer também o grupo daqueles que te apoiam. Meninos de salto que andam como querem, gente que se arma com glitter para fazer o mundo ter um pouco mais de brilho. Mulheres barbadas, pessoas que se libertam das amarras do “pode/não pode” e pregam a beleza do se deixar ser. É, viadagem, acho que você está no meio de uma guerra ideológica.

Obrigado, querida. Acho que ao fim dessa disputa perceberemos que você sempre estará dentro de nós e vamos parar de brigar. Aceitar dói menos. E quando te aceitarmos, todos os seus viados virão no bolo. Discretos, pintosas, enrustidos, ursos, g0ys, altos, baixos… Já pensou nesse povo todo se pegando ou apenas tentando ser mais amigo um do outro, que coisa linda? Que orgia fabulosa?

Obrigado, viadagem. Pelos homens, pelo cérebro, pelos dois pés esquerdos no futebol e até pela Britney. Valeu mesmo.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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