O terror do “Câncer Gay”…


É muito comum nos esquecer do passado e nos acomodar em situações confortáveis, sem pensar no custo que certas conquistas tiveram pras pessoas envolvidas. É por isso que preservar nossa história, além de refletir sobre ela, é tão importante. Se você esquecer, não vai aprender como evitar certas coisas e acabará por repetir os mesmos erros.

Hoje em dia ainda se apanha nas ruas e  se precisa lutar por direitos básicos, mas viver a homossexualidade é “mais fácil”. Se tiver o aplicativo certo, um telefone celular se transforma num verdadeiro catálogo de parceiros em potencial! Agora, vamos imaginar que a perseguição aos gays é muito maior. Até mesmo a definição, a palavra, é recente. Mesmo depois de muitos protestos, nós finalmente temos a sensação de liberdade para amar sem pudores, com um vislumbre de um futuro promissor. Na esteira das conquistas civis dos anos sessenta e setenta, o movimento gay está amadurecendo. Até que tudo vira de cabeça para baixo da maneira mais trágica possível!

É esse o cenário de “The Normal Heart”, o aguardado lançamento da HBO que fechou o mês de Maio. Baseado na peça homônima e semibiográfica do escritor, produtor e ativista Larry Kramer, e dirigido por Ryan Murphy (de Glee), o filme conta a história da criação do GMHC – Gay Men Health Crisis, a primeira organização de prevenção, informação e militância sobre o HIV/AIDS no mundo.

De uma hora para outra, uma comunidade inteira se viu vítima de uma doença desconhecida que matava rapidamente e das mais variadas formas. O governo não estava nem ligando e não existia incentivo para pesquisa médica sobre a praga. A mídia, quando mencionava, se referia ao “câncer gay”. Amigos de longa data, que tinham lutado juntos pelo direito à sexualidade, agora se viam enterrando mais e mais companheiros por semana, numa espécie de castigo inexplicável que só servia para marcar ainda mais nossa “anormalidade”.

É impossível não se emocionar com o filme. Essa luta por reconhecimento é a luta de todos nós. O “buraco é mais embaixo” quando se é soropositivo, porque fica impossível não se colocar naquela situação. Eu sei que não vou passar por aquilo, e devo isso justamente àquelas pessoas. Hoje, eu vou a qualquer posto de saúde e pego os remédios que impedem que o HIV me domine, graças ao programa brasileiro de combate à doença. Agora, como seria se eu vivesse em outro país ou em outra época?

Que sorte a nossa de vivermos numa época em que a AIDS é uma doença crônica. Eu não preciso ter medo de ser consumido em poucos meses e ainda sofrer preconceito declarado por sair às ruas coberto de manchas e com uma magreza cadavérica. Os meus amigos não precisam temer que qualquer indisposição minha seja o princípio do fim, e enterrar alguém querido está longe de ser um evento corriqueiro. Somos muito sortudos, e precisamos entender e valorizar isso. É chocante que os jovens de hoje sejam mais descuidados só porque “a doença não mata mais”. Isso é o mesmo que zombar de todos aqueles que foram vítimas dela sem nenhuma oportunidade de defesa. É uma vergonha.

Nossa vida é “mais fácil” hoje, o panorama é outro. Mas é muito importante que preservemos nossa história porque essa guerra ainda não acabou. Ou você acha que se surgisse do nada um “câncer gay” que realmente atingisse apenas os gays, sem nenhuma sombra de risco para quem é “normal”, alguém faria alguma coisa?

Você pode ler a coluna Lado Positivo d’Os Entendidos em quintas alternadas aqui no site.

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