BI, e daí?

BI, e daí?

Para alguns, ela é apenas um tropeço no caminho de tijolos amarelos para a viadagem. Para outros, é um desejo inalcançável e – muitas vezes – incompreensível. Para muitos, é uma tentativa mentirosa de aproveitar o melhor de dois mundos, sem precisar enfrentar suas dificuldades. Mas e aí, a bissexualidade existe? Tipo assim, pra valer?

Apesar das dificuldades, ser gay tem lá suas vantagens. Existe discriminação e até violência, mas o tratamento diferenciado nos possibilita enxergar o mundo de forma mais crítica e especialmente, mais tolerante. É claro que não é o caso de todos os homossexuais, mas pelo menos é algo desejável possível. E outra vantagem meio torta é que ser gay ou lésbica te define.

É complicado falar em definição sexual porque esse tipo de catalogação já deveria ter sido superada. Amor, gostos e práticas sexuais são parte da experiência humana e faz muito pouco tempo que passaram a servir para marcar identidades também. Nós dizemos “eu sou gay”, quando na verdade seria mais correto dizer “eu amo/ faço sexo com X pessoa”. Ou não? Entretanto, pertencer a um grupo – qualquer que seja – é mais fácil do que flutuar num “limbo social”.

É esse o problema da bissexualidade. Ela é como um limbo entre o céu e o inferno, tanto quando o paraíso é a heterossexualidade e a bichice é a danação, quanto no caso contrário em que o bom é ser fabuloso e o careta é ser – de fato – careta. Ela está no meio e por isso é um enigma. Por isso, incomoda.

Seria inveja? Sim, porque embora qualquer pessoa possa transar com quem quiser, assumimos nossas preferências como leis imutáveis e nos consideramos incapazes desse “feito”, e isso certamente aumenta a mística dos que conseguem transitar lá e cá. Não é invejável que alguém possa comer todo mundo? De repente, a punição social que essas pessoas sofrem seria apenas recalque dessa versatilidade toda, né?!

Para os homossexuais – geralmente os masculinos, já que as mulheres não são pressionadas pelas regras idiotas da masculinidade – a bissexualidade é apenas covardia. Uma forma de “roubar” no jogo da vida e gozar do “pote de ouro” que é o sexo entre iguais, sem o estigma que costumamos encontrar no fim do arco-íris. Às vezes, é só negação.

Já para os héteros, é pura sem-vergonhice. Quer ser gay? Tudo bem. Agora, ficar indo e voltando? Como é que alguém vai entender que uma hora você está com uma mulher e em outra, está com um homem? Como se explica isso? É claro, essas questões só se aplicam aos próprios homens, pois “mulheres bi” estariam apenas “brincando” com alguma amiga, coisa boba de momento…

SURPRESA: Bissexualidade existe! E homo, hétero, pan, gay que curte mulher de vez em quando, lésbica que gosta de ser penetrada, homens que gostam de dar e não são gays, gente que não faz sexo ou que é apaixonada por pés sem nem ligar para o gênero do dono, etc e etc… WHATEVER! Essas definições podem até servir para entendermos melhor os nossos comportamentos ou para ajudar na hora de um debate, de uma conceituação. Entretanto, é impossível que algum termo – qualquer que seja – consiga dar conta das variações da experiência humana.

Sexo bom é sem amarras. Sujo, profano, criativo, com “pegada” ou amorzinho. Ficar regulando o que os outros fazem na cama e como isso os afeta ou não é muita falta do que fazer! Aliás, deve ser falta de sexo também, pois quem está se divertindo não perde tempo criando caso. Agora, que os homossexuais – que sofrem basicamente o mesmo tipo de questionamento – ainda precisem ser lembrados disso, é no mínimo um contrassenso!

Ninguém tem o direito de negar a identidade alheia. Se alguém se identifica como bi ou qualquer outra coisa, precisamos respeitar. Já é ridículo que sejamos obrigados a dar satisfação aos outros sobre as nossas práticas, então é inadmissível que, uma vez elaborada uma resposta, ela ainda seja colocada em dúvida!

Eu sou gay. Identifico-me dessa maneira porque sou homem e prefiro me relacionar – sexual e afetivamente – com outros homens, além de me enquadrar em diversos construtos socioculturais pertencentes ao que é comumente chamado de “comunidade gay”. Acontece que já tive experiências – até afetivas – com mulheres. Algumas foram boas e outras nem tanto, mas nada impede que amanhã ou depois eu volte a ter alguma. Nem por isso me identifico como bi, e aí? Alguém vai caçar a minha carteirinha de viado por isso?

Mais e mais, vale o mantra: permita-se! Seja livre. Eu sou e isso é fabuloso!

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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