Entre Nós, nenhum conto de fadas


Entre nós é uma organização de contos sobre homossexualidade em língua portuguesa, feita por Luis Ruffato. Na seleção, nomes como Machado de Assis, João do Rio, Lygia Fagundes Telles, Rubens Fonseca, Caio Fernando Abreu, Hilda Hilst, João Silvério Trevisan e outros doze, compõe o panorama de Ruffato sobre o tema e preenchem, junto com um texto daquele e outro de Denílson Lopes, as 299 páginas do livro.

Nos 19 contos aos quais somos apresentados algo me chama a atenção, entre nós ou sobre nós, literariamente, parece haver uma marca muito forte de infelicidade ou tragicidade, no que se refere ao modo como somos representados. Somos o efeminado que precisa ser curado e que se suicida, o menino que é estuprado, o homem que aventam a possibilidade de ter corrompido e assassinado um menino, o que não podendo amar arranja a vida da melhor maneira possível para o ser amado, a menina que se mata por não ser aceita pela mãe, o homem másculo que se feminiza e apanha do homem com quem mantêm encontros furtivos…

Não parecemos ser fadados à felicidade e menos ainda a redenção, como as meretrizes criadas no período romântico tiveram. Nossos amores são todos realistas, naturalistas e modernos. São sempre vistos como torpes, imorais, proibidos, vexatórios.

Mesmo nos outros textos que eu aqui já falei, as coisas não são tão diferentes. Mesmo Carol, que se aproxima mais de um final feliz, é um final feliz em que as personagens não terminam juntas, mas com a possibilidade de. E o que dizer de Lúcio, que é preso pelo homicídio de Ricardo? Ou de Giovanni, que morre enforcado?

É claro que o momento histórico em que esses textos são produzidos e também por quem são produzidos têm que ser levados em consideração. Contudo, nem mesmo no Terceiro Travesseiro, obra do início dos anos 2000, que com seu cunho mais comercial e popular há o final feliz.

"Jongens" (Garotos, 2014), filme holandês dirigido por Mischa Kamp.
“Jongens” (Garotos, 2014), filme holandês dirigido por Mischa Kamp.

Diferentemente acontece no cinema, com o qual já temos uma boa relação e que nos produz cada vez mais filmes onde a nossa felicidade não só é possível, como acontece de fato, nos exemplos mais recentes temos Hoje eu quero voltar sozinho, de Daniel Ribeiro e Garotos (Jongens), filme holandês dirigido por Mischa Kamp.

Cinema e Literatura, duas esferas distintas, agindo por isso de modos distintos sobre o mesmo tema, mas revelando algo tão comum entre si. Tanto o cinema como a literatura são produtos de burguesia e, principalmente, para a burguesia. Mesmo o cinema hoje sendo mais acessível, do que a literatura, muitas vezes. No meio, temos a televisão e o conteúdo por ela produzido que visa atingir o maior número de pessoas possíveis e que nesse diálogo narrativo que estamos propondo, se encontra ao meio.

Isso porque, enquanto a literatura caminha, ao que parece, a passos mais lentos no que se refere a produção de happy endings, tão necessários a nossa auto-estima e condizente já com a realidade de muitos gays, a televisão, já tem ensaiado esses finais felizes, que são mais comuns no cinema, principalmente o produzido internacionalmente.

No entanto, também me é compreensível manter-se esse tom mais trágico nos romances gays, ainda mais se pensarmos que travestis ainda são mortas nas noites das grandes cidades, meninos ainda escondem de seus pais sua homossexualidade por medo de serem excluídos do seio familiar ou até mesmo coisa pior, dentre tantas outras dificuldades impostas principalmente aos gays não “bem nascidos”.

A literatura vive, em nosso caso, da nossa tragédia em um mundo ainda tão machista e heteronormativo e é importante que essas coisas sejam ali mostradas, assim como a miséria e a pobreza, a vida dura nas cidades, ainda são temas de livros de grandes nomes de nossa literatura. O ponto é que, nunca tivemos entre nós, contos de fadas. Poucos nos deram essa oportunidade de sonhar, ao lermos um livro, a possibilidade de termos finais realmente felizes e penso que precisamos disso, para que, não só nós, mas todos que lerem a obra comecem a perceber quão normal e natural é o amor entre iguais.

Pensando nisso, volto ao livro e a apresentação de Denilson Lopes intitulado Por uma nova invisibilidade, no qual ele defende a sutileza proposta, como ele mesmo cita, por Silviano Santiago no artigo O homossexual astucioso, onde o confronto é a arma dos discursos conservadores, machistas e fóbicos. Onde a identidade é sempre um caminho para a luta e enfrentamento.

Sobre isso acho válido lembrar algo que já escrevi sobre esse texto, quando falei do filme “Hoje eu quero voltar sozinho”, no meu blog:

“a invisibilidade que o autor de “Por uma nova invisibilidade” apregoa não é o do assujeitamento, do silenciamento que fere e impõe o armário, muito pelo contrário. A invisibilidade e o silêncio é o da escuta, é o da pausa para a reflexão de um caminho outro para o trato da questão. É o dizer de outra maneira, mostrando a natureza humana dos temas tratados, com naturalidade que nos leva a empatia e ao respeito, porque faz perceber que o que vemos é passível de acontecer com quem quer que seja, pois, citando Fernando Pessoa: ‘O amor é essencial./ O sexo é acidente./ Pode ser igual/ Ou diferente.'”

Talvez, pelo menos é o que pra mim parece, o caminho proposto por Denílson é justamente o de mostrar que podemos ser felizes, que temos esse direito literariamente, mesmo com todas as pedras no caminho que temos. Para isso é preciso que tenhamos histórias com finais felizes.

Referência: RUFFATO, Luís (org.). Entre nós. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007. – (coleção Língua Franca)

Previous Quem come quem?
Next BI, e daí?

1 Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *