Chora não, é só brincadeira!


De vez em quando eu presencio alguém estufar o peito, de orgulho e saudosismo, para dizer: “antigamente não tinha nada disso de bullying e todo mundo brincava com todo mundo e ficava tudo bem”. Uma afirmação que, imediatamente, me faz questionar se a pessoa conhece o real significado da palavra ou se essa ignorância do termo não camufla uma tentativa de se eximir de culpa. Pois, apesar do termo ser recente a prática certamente não é.

Sinceramente acho muito pouco provável que alguém tenha chegado a vida adulta, passado por inúmeros processos de socialização, sem nunca ter presenciado um único incidente desse tipo de “coerção” repetitiva sequer.

Muitas das vezes esses mesmos “inocentes” argumentam que apelidos e zoação fazem parte da infância e que as crianças amadurecem passando por esse tipo de coisa. Não discordo totalmente, mas bullying não é só isso.

Essa semana li o desabafo de Stephanie, uma estudante da PUC-Campinas, negra e feminista, contando como a sua cor de pele e posicionamento a tornaram alvo de perseguição, ameaças e comentários infelizes por parte de alunos, professores e funcionários. Transformando o seu sentimento de conquista por ter ingressado neste privilegiado  curso de Arquitetura e Urbanismo em um constante esforço para não desistir do convívio ” desse mundo branco/elitista/reaça“.

Nesse e em muitos outros casos de bullying percebemos como a ação de poucos e o silêncio de muitos criam um opressivo ambiente de isolamento onde a vítima é frequentemente censurada e desmotivada a reagir. “Pára de fazer drama!”; “Era só uma brincadeira!”; “Credo, você vê preconceito em tudo!”; “Você gosta de criar tempestade em copo d’água, hein?!”.

Estes e outros comentários visam desqualificar qualquer reação da vítima. Geralmente ditos com, suposta, boa-intenção, eles fazem com que a vítima questione os próprios sentimentos de revolta causados pelas agressões. Mas se dizem que o bullying prepara crianças para a realidade do mundo, qual a necessidade de calar o injuriado? Por que criamos desculpas para os autores e atribuímos culpa a quem sofre tais abusos? Não seria melhor enaltecermos quem se levanta contra injustiças mesmo quando ela não acontece com a gente?!

Ao silenciarmos os agredidos, compactuamos com o agressor e condicionamos o grupo a aceitar agressões sem reagir. Logo, me parece, que “piadinhas” e “gracejos” servem para nos mostrar, desde a infância, que o entretenimento de alguns é mais válido que o sentimento de dignidade ou pertencimento de outros. E que não cabe a ninguém se sentir ofendido ou ameaçado quando alguém nos ridiculariza se tem alguém rindo disso.

Infelizmente, nem toda vítima – de qualquer tipo de abuso – tem a coragem ou disposição de se insubordinar e resistir. Essa semana também tivemos o exemplo de que o verbal pode evoluir para o físico quando reagimos com o caso de Sofia, que foi ameaçada com uma faca e depois, covardemente, chutada pra fora de um ônibus após ter recusado os avanços sexuais de outro passageiro. Tudo sob o aval de inúmeros espectadores, que tal como crianças, temiam demais o valentão para se solidarizarem com outro ser humano, ou apenas consideraram apropriado o mau-trato dado por se tratar de uma “travesti”.

Por nos tornar complacentes e nos calar em situações de agressão que repito: o termo bullying pode ser novo mas a sua prática, que privilegia o (considerado) mais forte, certamente não é. E por frequentemente ser tolerada em nome de um humor que submete o senso de dignidade alheio que não devemos considera-lo como um problema restrito ao mundo infantil.

Se realmente queremos que nossas crianças se tornem adultos preparados para as injustiças do mundo devemos entender que nenhuma piada vale a alienação da dor de alguém. Se, de fato, aceitamos provocações e alcunhas como naturais e inevitáveis, que utilizemos isso como lição para que quando o alvo demonstra insatisfação é a hora de parar. Uma brincadeira da qual nem todos os envolvidos se divertem não pode ser considerada um ato amigável. Amigos, até onde eu sei, respeitam os limites dos outros.

Certamente ainda temos muito a aprender sobre o respeito ao outro. Numa cultura onde um juíz permite – segundo sua própria concepção do que é religião – que religiosos ataquem a “crença” de outros, podemos ter dimensão do prejuízo provocado quando interpretamos a resiliência dos queixosos como imaturidade ou falta de senso de humor.

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