AMOR: Positivo, negativo ou discordante


Apesar dos avanços científicos que melhoraram a qualidade de vida dos portadores do HIV, o diagnóstico ainda choca. Há um estigma muito grande associado à doença e esse é provavelmente o lado mais difícil de conviver com ela. Para os portadores, aceitar e se educar sobre a nova condição é a única saída, mas para seus familiares e especialmente seus parceiros, o caminho às vezes é mais difícil.

LadoPositivo2No post da semana retrasada, perguntaram-me sobre o impacto do HIV em minha vida amorosa. Se terminei meu namoro, se o possível término foi por causa da doença ou se nada mudou. Eu resolvi responder com um novo post porque a resposta é simples: não importa!

Eu afirmo que não importa porque a minha experiência é única, tal qual a de qualquer indivíduo. Eu diria que o HIV fortaleceu o meu namoro num primeiro momento, pois meu parceiro era a única pessoa com quem eu podia dividir a sensação dessa descoberta. Os meus amigos foram maravilhosos em me apoiar nesse período, mas apenas eu e meu namorado tínhamos acabado de nos descobrir portadores do vírus. Desde o princípio nós não nos preocupamos em apontar culpados, então esse período inicial foi de aproximação e cuidado mútuo. Nós terminamos depois disso. E voltamos. E terminamos. E voltamos e terminamos. Isso por causa dos problemas normais de todos os relacionamentos, sem nenhuma influência da doença.

É difícil saber, mas talvez o caso amoroso mais importante dentro desse assunto tenha sido um dos mais breves, que aconteceu em uma dessas idas e vindas do meu antigo relacionamento. Eu me envolvi com um rapaz soronegativo e tive que contar a ele sobre meu estado, com toda a apreensão e uma cena dramática de rejeição preparada para o pior. Ele não teve problemas com isso e nós tivemos um namoro curto, que foi tão significativo por ter me dado uma validação que eu nem mesmo sabia que queria. Com ele eu aprendi que ser soropositivo não me tornava indesejável e muito menos impedia que pessoas “normais” aceitassem namorar comigo. Por causa disso, quando eu voltei a namorar com meu parceiro que também era positivo, a AIDS não era uma questão. Se existia alguma obrigação de ficarmos juntos só porque tínhamos dividido aquilo e provavelmente ninguém mais iria nos querer, ela tinha sido eliminada. Eu e ele ficamos livres para ficar juntos ou nos separar quando e como quiséssemos.

É claro que não é assim para todos. Alguns relacionamentos não resistem ao choque e algumas pessoas tem certeza de que foram contaminadas pelo parceiro e não conseguem perdoar isso. Outras, resolvem passar pelo período de luto e aceitação sem um envolvimento amoroso ou desistem de vez de ter algum relacionamento do tipo. Há ainda casais que passam pela mesma situação que eu, de descobrir juntos, mas que ainda assim se afastam. E há também pessoas soronegativas que topam “encarar o desafio” quando o parceiro se descobre infectado e até mesmo quem sinta um amor maior ou uma necessidade de cuidar daquela pessoa por estar presenciando um momento de tamanha fragilidade. Um casal de amigos meus, por exemplo, se manteve junto depois que os dois se descobriram infectados e consideram que esse laço fortaleceu a ligação entre eles, mas admitem que o relacionamento deu uma esfriada. Um deles se sente pouco apoiado nessa questão, enquanto o outro ainda prefere “negar” a doença e evitar falar dela.

É totalmente possível amar e ser amado com o HIV. Uma pessoa em tratamento é muito mais “segura” do que uma pessoa que desconheça seu status sorológico e que talvez esteja portando e disseminando essa e outras doenças sem saber. Manter um relacionamento, seja sorodiscordante, positivo ou negativo, é sempre um desafio. Como acontece com quase tudo que é humano, a melhor resposta só precisa de um pouquinho de… AMOR!

Acompanhe a Lado Positivo em quintas alternadas, aqui n’Os Entendidos. Você pode falar comigo através do e-mail poz@osentendidos.com.

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