Quando o cara-pálida se pinta


Sabe a piada da mãe que tinha um caso com o filho? E aquela do patrão que sofria de mão-boba com as funcionárias? Talvez, então, você já tenha ouvido falar daquele stand-up sobre campos de concentração. Não?! Engraçado, mas a comédia tem dessas coisas.

O nosso riso é um excelente indicador do que consideramos – enquanto cultura – aceitável, louvável ou ridículo. A nossa tolerância com alguns “materiais” usados por comediantes é capaz de revelar preconceitos ainda velados.

Se por aqui é possível encontrarmos quem ache graça que na Índia não se coma carne bovina por considerarem vacas sagradas, não é difícil imaginar que para um hindu não haja graça nenhuma nisso. Por aqui, um personagem indiano viciado em churrasco poderia arrancar gargalhadas do público, mas o que poderíamos entender se esse esquete fosse interpretado por um ator branco maquiado de marrom?

Caracterizar alguém (considerado) branco de negro, índio ou asiático, infelizmente ainda é comum nossa cultura. Na mais nova novela das 19h, Geração Brasil, estreou essa semana um personagem coreano interpretado por um ator branco como olhos esticados por fitas adesivas. Isso significa que compreendemos traços raciais como adereço, ou apenas que não há atores asiáticos competentes para o papel?

O racismo, a homofobia, o elitismo e tantos outros preconceitos marcam presença semanalmente no humorístico Zorra Total, no entanto,  muito pouco debatemos sobre o real significado de tudo isso. A própria insistência em caricaturas de negros, transexuais, desfavorecidos etc. como “fórmulas de humor” são sintomas de que ainda temos muito que superar enquanto cultura e sociedade.

O ato de caracterizar pessoas de etnia branca/europeia com traços de outras etnias é deflagrador da dominância desta cor sobre as demais na nossa cultura. Se por um lado nos faz pensar que somos “todos iguais”, por outro, tal caracterização nos diz que o referencial aceito se limita ao caucasiano. Ou um ator negro cheio de pó de arroz no rosto nos pareceria aceitável e não meramente ridículo?

Em outro texto falei que ao homem branco é permitido ser qualquer coisa e o nosso não incômodo com essa representação é prova de que a ele é permitido se passar até por membro de outras etnias. É como se elas não passassem de uma variação do homem branco, bastando usar urucum, fuligem, henna ou fitas adesivas para que alguém seja percebido como sendo de uma etnia diferente da própria. E se alguém reclamar do cara-pálida, basta dizer que é tudo piada.

Talvez seja necessário ser mais claro: encarar as diferentes características étnicas/raciais como acessórios é racismo! Principalmente se o adornamento só é permitido a um grupo. Ou você nunca percebeu como o termo criloiro é também usado para depreciar aqueles que ousam se apropriar do tom de cabelo mais valorizado?

O fato de caras-negrasvermelhasamarelas e afins serem utilizadas constantemente em caricaturas humorísticas também são denunciadores do racismo que mantemos enraizado. Assim como a nossa benevolência com essas “representações”, cujo novo exemplo estreou nesta semana.

Será mesmo que dentre os milhares de descendentes de coreanos no Brasil não exista, ao menos, umas duas dezenas de pessoas que tenham seguido carreira de ator? E como racismo não parece ser problema para a maior emissora do país, será que não dava pra empurrar qualquer outro ator descendente de qualquer outra nação de olhos puxados?

Talvez o papel seja importante demais à trama para ser delegado a um ator acostumado a ser um figurante com falas, realmente. Ou quem sabe o desenrolar dos episódios revele que o personagem não passe de um farsante, autor de uma farsa cujos cúmplices são os espectadores.

Aqueles que acham que tudo isso não passa de chatice politicamente correta minha, sinto informar que não fui o primeiro a escrever sobre o tema. Pesquisando o termo blackface podemos encontrar excelentes textos como esse. E se você ainda acha que tudo é válido no humor… Espero que a sua existência um dia se torne motivo de graça. Brincadeirinha!

Caras Palidas

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