Morte nº 2


Eu inaugurei esse espaço falando dos sete dias entre o exame e o diagnóstico, e dizendo que foram os sete dias que me senti aidético. É verdade, mas teve outro. Esse oitavo dia só veio depois de quase um ano, mas foi mais forte que os outros sete. Estou falando do dia em que eu fiquei sabendo que precisaria tomar remédios.

LadoPositivo2O coquetel antiaids é composto por ao menos três drogas que “cercam” o vírus. Elas impedem que ele se multiplique e ataque o sistema imunológico, evitando que se inicie o quadro de AIDS.

Nos Estados Unidos, recomenda-se o início imediato do coquetel, tão logo o paciente é diagnosticado. Pesquisas recentes falam inclusive na “cura funcional” de pacientes submetidos ao tratamento precoce, que teriam prescindido da medicação depois de um tempo. No Brasil – país de destaque em políticas públicas para o tratamento do HIV, com distribuição gratuita de remédios – a medicação só era indicada depois que o paciente atingia um determinado nível de células CD4, que são as células de defesa atacadas pelo vírus. O meu problema foi esse. *

Depois que eu passei por aquela semana de angústia até receber a notícia de que era portador do vírus HIV, a sensação de morte iminente que a palavra AIDS ainda carrega se dissipou. Até hoje, eu não tive nenhum problema relacionado à doença e chego a pensar se “a ficha caiu” ou se o caso é que as coisas estão mais fáceis hoje em dia mesmo. Eu iniciei o meu tratamento e logo já sabia de tudo sobre o meu problema, e de como era importante monitorar a taxa de CD4 e carga viral no meu sangue. O quadro ideal é: CD4 alto, carga viral baixa.

Acontece que o verdadeiro quadro ideal é ainda mais raro, apresentado aos novos pacientes como uma possibilidade consoladora: passar uma década sem precisar de remédios, controlando a doença apenas com o próprio sistema imunológico e cuidados com a alimentação, vivendo uma vida absolutamente normal.

Quando recebi a notícia de que precisaria começar a medicação, depois de apenas onze meses “fingindo que não era comigo”, me senti novamente uma pessoa doente. Pela segunda vez, pensei que estava prestes a morrer. Foi a minha morte nº 2.

Eu tive a sorte de não sofrer com efeitos colaterais, então para mim a pior coisa dos remédios é que eles são um lembrete diário da doença. Ir até o posto médico para buscá-los uma vez por mês pode ser chato ou até deprimente, mas a lembrança vem quando chega a hora de tomar mesmo. É todo dia, no mesmo horário, não importando o local. As mesmas pílulas.

O lado engraçado é quando o hábito já está tão enraizado, que você não tem certeza se tomou ou não, e fica tentando lembrar de como foi a dose do dia. Já aconteceu de eu espalhar todos os remédios na mesa para contá-los e ter certeza que a conta batia!

Como tudo tem um lado positivo, os remédios funcionam. Em pouco tempo os meus níveis de CD4 subiram e a quantidade de cópias do vírus por ml de sangue, a carga viral, começou a cair. Hoje ela é “zerada”, o que significa que a quantidade de vírus no sangue é indetectável. E enquanto não existe uma cura, esse é o melhor cenário.

Acompanhar a evolução do tratamento e a melhora proporcionada pelos remédios foi evidentemente melhor do que me sentir piorando a cada novo exame, e por isso eu quis falar desse momento. Começar a medicação foi como uma segunda morte, mas foi também o início de meu processo de renascimento.

* NOTA: Esse relato é pessoal e se refere a momentos acontecidos há anos. Recentemente, o tratamento imediato começou a ser aplicado no Brasil.

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