(Homo)Sex and the City e otras cositas más…


Depois de 89 meses de uma relação conturbada, resolvi viver dois meses de uma epifania romântica. Terá sido infantilidade? Quebrei a cara, namorei à distância, voltei com o antigo namorado, terminei de novo, fiquei com A e B, e depois me envolvi num amor amizade que também teve lá seus percalços. Tudo faz parte. Pelo menos, dá pra brincar de  Carrie Bradshaw!

Minha saga começou há séculos oito meses depois de eu completar 18 anos. Finalmente tinha caído na night, feito novos amigos, e me jogava nas mais variadas experiências. Num beijo quíntuplo, um estalo químico fez com que eu me apaixonasse perdidamente. Em seis dias, a paixão virou namoro e em três meses, desilusão. Vinte dias depois, voltamos. E daí, entre idas e vindas e risos e lágrimas, construímos uma relação que passou dos sete anos – e dos oito, e dos nove e dos dez! – e que por mais que não parecesse ideal para muita gente, teve coisas ótimas.

A “crise dos sete anos” veio na forma de um novo amor, e eu me atirei de cabeça. Estava decidido a ser um príncipe e comprar a ideia romântica com todas  as suas formas, oferecendo minha amizade, minha fidelidade e meu sorriso, mas sempre tentando analisar tudo de forma objetiva. Esse outro relacionamento durou apenas dois meses, mas foi muito marcante por causa do momento que eu atravessava, e me fez pensar muito na questão amorosa como um todo. Por que relacionamentos gays são tão instáveis? Será que o problema é tentar reproduzir um modelo que não serve nem para os heterossexuais? Sem o apoio da cultura, é difícil, mas acho que a questão está na nossa educação.

No caso dos homossexuais masculinos, temos dois homens culturalmente condicionados para a promiscuidade. Sem o “freio” de uma mulher condicionada a “se valorizar”, terminamos em relações extremamente sexualizadas que muitas vezes não abrem espaço para algum tipo de envolvimento. Subtraindo os caras que não podem se envolver por já serem casados, estarem no armário ou mal resolvidos, as opções ficam bem escassas…

No “mundinho gay”, temos os rapazes que se sentem feios por não se enquadrarem no ideal de beleza do meio. Esses, por causa da rejeição, talvez estejam mais vulneráveis abertos a relacionamentos afetivos, apesar de às vezes caírem na armadilha de desejar “deuses gregos” que não lhes darão atenção. Os tais deuses, geralmente cegos pela adulação e mais preocupados em aproveitar a atenção e o sexo fácil, podem acabar deixando de lado o emocional. E fora desses pólos, há os que não curtem efeminados, os que escolhem demais, aqueles que não acreditam no namoro entre homens, os que não conseguem ser monogâmicos, aqueles que acham a monogamia fundamental para o relacionamento e é claro, aqueles que não desistem e continuam tentando.

Sempre achei que a postura mais saudável era ir vivendo até que um dia, por sorte, coincidência ou destino, alguém que poderia ser perfeitamente corriqueiro – e que para outras pessoas certamente foi – , te tocasse de alguma maneira especial.

No “país das maravilhas dos aplicativos e boates”, talvez a oferta excessiva  seja um problema, mas a própria identidade gay já é motivo de angústia. Salvo raras exceções, gays passam por dificuldades ao “se descobrirem” e “se assumirem”, e esses confrontos deixam cicatrizes. Fica mais difícil confiar nos outros e ser aberto sobre si, o que é uma experiência bastante diferente daquela dos heterossexuais. Todos buscam aceitação e há períodos – como a adolescência – que são conturbados para qualquer pessoa, mas a “mente gay” acaba sendo mais bombardeada com essa questão de pertencer do que a “mente hétero”.

Talvez seja verdade que para dois homens seja mais difícil manter um relacionamento “sério” e duradouro – embora isso não seja necessário. Mas acredito que a questão é muito mais complexa do que “luxúria num ambiente permissivo” ou simples “vocação de gênero”. Isso já seria determinismo biológico, o que é uma bobagem completa!

Tenho um amigo que diz que até as relações de amizade são mais difíceis no nosso meio. Talvez sejam. Eu não sei, porque em meio a namorados, amantes, ficantes, peguetes e até uma amiguinha moderninha ocasional, foram os meus amigos que seguraram minha onda, me ouviram, secaram minhas lágrimas e foram pra balada dançar comigo para afastar os maus espíritos.

Assim, não posso deixar de pensar… Talvez sejam esses os nossos relacionamentos sérios.

*****

A coluna de hoje é comemorativa. Ela é a versão atualizada e melhorada de um texto que eu escrevi em 2010 no P-Files, o antigo blog que eu dividia com o Léo, e que é pai d’Os Entendidos. Leiam, divirtam-se, mas sejam condescendentes também. Nos últimos quatro anos eu aprendi a escrever melhor e graças a tudo que essa coluna e esse site me permitiram discutir, passei a entender muito mais sobre mim e sobre sexualidade. E por isso, sou grato.

Fiz esse resgate porque nessa semana Os Entendidos completou três anos de existência e eu quis usar esse espaço para falar das novidades que estão pintando por aí. Vocês já viram que nosso time aumentou e temos novas colunas, como a Não Freud Comigo! que presta aconselhamento para os corações angustiados, a No armário que conta a jornada de alguém que acaba de se assumir para o mundo e a Lado Positivo, que fala da vida com o HIV. Temos também a Estante, que dá nossos primeiros passos na crítica literária e a Sapha, que é nosso espaço para as meninas, há muito atrasado.

Novas colunas e parcerias virão, além de mais conteúdo jornalístico e um novo layout, para deixar o site mais bonito e dinâmico para vocês. Na própria Dando Pinta, teremos mais posts desse tipo, utilizando “causos” da minha vida para falar de comportamento e sexo.

Em parceria com o Ambrosia, voltaremos a produzir vídeos para que vocês possam se apaixonar por mim debater conosco as questões mais importantes do nosso universo, e como somos quase ex-BBBs, estamos analisando vários projetos aí! Um que já podemos divulgar é a nossa label party, a Fabulosa, que levará para as pistas o clima sem preconceitos do site. Aliás, vocês já podem curtir a página da festa e aguardar as informações sobre ela lá.

Mais uma vez, obrigado a você, leitor, por esses anos fabulosos. A Dando Pinta é publicada todas as quartas e a nossa fanpage também é incrível! Até semana que vem!

Previous Homofóbicos, me perdoem...
Next Morte nº 2

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *