Homofóbicos, me perdoem…


Lutar por qualquer ideal nunca é fácil. O mundo real não parece disposto a ouvir, a dar oportunidades… Às vezes nem para você se enganar! Há alguns anos que venho lutando por liberdade e respeito à diversidade. Entretanto, nos últimos tempos fui chamado de opressor por aqueles que mais desejava tocar: os homofóbicos – gays ou héteros.

Acho impossível oprimir um homem-branco-heteronormativo-cristão. Tudo é muito fácil para eles, então qualquer argumento nesse sentido parece mimimi de quem sente seu poder diminuir. Mas é claro, somos todos humanos. De repente, estou enganado. De repente, tenho que pedir perdão.

Eu sabia que estava errado, que o jeito que eu andava e falava era agressivo. Podia até não entender bem o porquê, mas eu sabia que estava errado. Todos apontavam isso, não tinha como não saber! Até a minha mãe, coitada, me apontava. Porém, acho que tenho que pedir perdão a ela também, porque cobravam que ela me criasse do jeito certo e eu me portava daquela maneira. Devo tê-la envergonhado muito. Acho que ela meio que me repassava a cobrança que lhe faziam. É, talvez pedir perdão só para vocês já seja o suficiente. Vocês, que são minhas maiores vítimas. Mas entendam que nessa época eu era criança e embora soubesse que estava errado – já que um de vocês sempre fazia alguma coisa para me lembrar – , não tinha como evitar ser assim. Era mais forte que eu.

Não estou me desculpando. Não gosto da palavra “desculpa” porque parece que nos exime de culpa. Prefiro pedir perdão mesmo. Sei que tenho culpa. Por mais que não conseguisse ser diferente, eu poderia ter tentado. Eu poderia ter desviado o olhar quando alguma boneca estava perto de mim ou ter me forçado a jogar futebol, por pior que fosse o resultado disso para o time. Estou pedindo perdão porque fui muito inconveniente para vocês.

Tá, vocês me xingaram e chegaram até a me bater. Fizeram a minha mãe me perseguir e meus coleguinhas me darem um “gelo educativo”, para ver se eu tomava jeito e “segurava a pinta”. Teve aquele dia também, super divertido, que a festa junina da escola era com os gêneros trocados e vocês deram sumiço nas minhas roupas, me obrigando a voltar para casa de vestido. Fiquei com uma certa mania de perseguição, achando que toda vez que entrava numa sala e por acaso alguém ria ou cochichava alguma coisa, era por minha causa. Mas hoje entendo que era difícil para vocês também.

Devia ser muito difícil ter que olhar para aquela “mini-bicha”, e ser lembrado que conceitos básicos sobre o que é certo e errado podem ser desrespeitados por qualquer um. Deve ter doído perceber que a “maravilha” do domínio masculino não parece tão fabulosa para todos, e que alguns até abrem mão do papel de dominante. Realmente, fica difícil resistir ao impulso de aniquilar – física e psicologicamente – alguém que foge do padrão. É a diferença que é ameaçadora, já que a norma é apenas “o certo”.

Ah, mas eu estou me fazendo de vítima. Estou fazendo drama para tentar comover meia dúzia de mulheres e conseguir simpatia, demonizando a opinião dos outros. É evidente que alguém pode ser homofóbico. Por um acaso, todos são obrigados a gostar de viadagem? Como é possível que eu lute por tolerância e seja tão fascista com os héteros e os “gays discretos”? Essa fantasia de mocinho e bandido é necessária para que eu me afirme como herói?

Nem tanto. Acredito – deve ser a única instância na qual minha fé se manifesta – que o ideal de tolerância será alcançado e, ao invés de colocar em lados opostos opressores e oprimidos, nos unirá ao liquidar esses papéis. Todos somos vítimas do machismo, então consigo entender que minha vida e meu comportamento tenham sido percebidos como agressivos. É por isso que peço perdão. Mas não inventei nada disso, não tenho culpa desses “erros”, então tenho o que perdoar também. Tenho que perdoar cada pessoa que contribuiu e contribui para a promoção da homofobia, às custas da paz e do sangue de tantos homossexuais, para que possamos pelo menos COMEÇAR a falar em respeito à diversidade. Só que vocês vão precisar fazer uma coisa…

Para que eu os perdoe, é preciso que todos reconheçam seus erros e me peçam perdão. Depois disso, quem sabe, conseguiremos olhar para o futuro sem o peso do passado. Sei que não é fácil, mas acabo de fazer isso. E se eu – uma bichinha – consigo, não serão vocês que não vão conseguir, né?

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

Previous Mais que um Lolita para meninas
Next (Homo)Sex and the City e otras cositas más...

1 Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *