Quem me passou AIDS?


Depois do choque inicial do diagnóstico e dos amigos entenderem que a minha morte não era tão iminente, uma série de perguntas ficaram martelando minha cabeça: Quem me passou AIDS? Quando foi que isso aconteceu? Faz alguma diferença se foi numa suruba hardcore ou com meu namorado? De quem é a culpa?

Eu me fiz todas essas perguntas, mas cheguei a escutar algumas de outras pessoas também. Por que alguns amigos estavam preocupados com isso? Era só curiosidade ou queriam alguém para crucificar? E identificando esse alguém, o que eu deveria fazer?

Quando falamos em HIV/AIDS, são várias as “verdades” que a sabedoria popular nos conta. A maior parte delas, lamentavelmente, é puro preconceito. Campanhas como a “Fique Sabendo” existem porque a maioria dos novos casos de infecção acontece porque, devido ao estigma associado à doença e à pouca procura pelos testes e tratamentos, a maior parte dos infectados não sabe de sua condição. Isso é muito perigoso para o portador do vírus, que provavelmente só vai descobrir a doença quando ela tiver evoluído ativamente para AIDS, mas é ainda mais perigoso para seus parceiros soronegativos, que talvez se descuidem por acreditar que não há risco.

O HIV – ou qualquer outra DST – não é uma punição por uma conduta imoral. A maioria das pessoas que estão por aí infectando outras não faz nem ideia de que carrega o vírus, e todo mundo sabe que deve se proteger e usar camisinha. E já que é esse o quadro, eu posso culpar alguém?

Eu sei de quem foi a culpa e acho que todos que vivem com o HIV sabem também. A culpa é minha e de mais ninguém. O risco sempre existe. A minha infecção não foi causada intencionalmente por algum parceiro mau ou por um juiz divino que queria punir a minha luxúria. Ela é algo que eu poderia ter evitado tranquilamente, uma vez que não me faltavam informações e meios para tal. A procura de um bode expiatório seria apenas uma forma de negar a minha responsabilidade nisso, e como não serviria para me curar, de que adiantaria?

HIV/AIDS não é algo que ninguém deseje, mas é perfeitamente administrável. É exatamente por causa do meu tratamento que eu hoje tenho mais informações sobre a doença, o vírus e as formas de contágio. Graças aos remédios, eu sou virtualmente não infectante, mas tenho a certeza de que não vou infectar ninguém porque saber da minha condição é a minha maior proteção. O que “passa AIDS” é a falta de informação.

Eu não sabia que aquela pessoa, seja quem for, poderia me infectar. Quem me infectou não sabia que tinha HIV e que mudaria a minha vida dessa forma, numa transa, e foi exatamente por isso que mudou. Melhor dizendo, nós dois sabíamos. Sabíamos que deveríamos usar camisinha, já que QUALQUER pessoa pode ter o vírus, mas fomos burros, irresponsáveis, inconsequentes… Qualquer coisa do tipo. Sexo não é uma coisa ruim e nenhuma doença é um castigo pelo prazer.

Faça o teste, fique sabendo. Se o resultado for positivo, não adianta procurar um culpado. Se você apenas se proteger e, assim, cuidar também dos seus parceiros, não precisará ser “o culpado” na vida de ninguém…

Você pode fazer o teste e iniciar o tratamento em qualquer unidade pública de saúde. Pesquise por uma na sua área clicando aqui.

Leia Lado Positivo em quintas alternadas, aqui n’Os Entendidos.

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