A primeira vez…


Em 1895, uma obra rompe com muitos paradigmas literários: trata-se evidentemente de Bom-crioulo, de Adolfo Caminha, que traz em sua composição um negro como personagem principal, mas não como uma figura qualquer.

Amaro, o bom-crioulo, além de ser homossexual, é marinheiro, que seduz o jovem Aleixo, um efebo branco, de traços delicados, com quem passa a viver um caso amoroso, que culminará em tragédia.

Sendo uma obra de viés naturalista, o enredo vai se apresentando como uma sucessão de acontecimentos dos quais as personagens não conseguem se opor. Assim, Amaro não resiste ao padrão de beleza visto em Aleixo, como este não consegue escapar da impetuosidade das investidas daquele – e nem das quais sofre por parte de Dona Carolina, a portuguesa dona da pensão onde vive com Amaro.

De mesmo modo, Amaro não consegue escapar da sua “natureza animalesca de negro” – estereótipo muito difundido à época (um beberrão que briga com todos) –, e que o leva ao fim trágico desse romance. Sem com antes, experimentar a paz de espírito ao conviver com o pequeno Aleixo, evocando o papel “adestrador” do branco para com outras raças, do mesmo modo que Dona Carolina é quem torna a pôr o grumete de volta nos eixos da sexualidade, outrora corrompida por Bom-crioulo.

Assim, a obra nos permite ter um olhar não só da questão racial nos tempos em que foi publicada, mas da postura da forças armadas, no caso a marinha, em relação aos que nela atuavam, bem como dos papéis sociais exercidos por homens e mulheres e como o homossexual se insere nessa organização.

A leitura é uma boa oportunidade de conhecer o primeiro romance brasileiro a tratar da homossexualidade de forma aberta, experienciada pelas personagens principais e de perceber que o assunto em nossa literatura é muito anterior ao evento “O terceiro travesseiro”, que há alguns anos causou tanto frisson no meio literário.

"Bom-Crioulo", peça produzida pelo Grupo de Teatro FAOS, adaptada e dirigida por Joselma Luchiniatro. Fonte: Letras Essenciais
“Bom-Crioulo”, peça produzida pelo Grupo de Teatro FAOS, adaptada e dirigida por Joselma Luchiniatro. Fonte: Letras Essenciais
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