Ética, HIV, e o enigma da esfinge…


“Ser ou não ser, eis a questão”. No caso do HIV, esse “ser” depende – em esfera social – de que se assuma ou não a condição, mas o fato de se tratar de um vírus incurável faz com que os infectados sempre SEJAM soropositivos, independente de admissão. Então, a questão passa a ser outra: revelar ou não o status.

Com o estigma que ainda é associado à doença, é natural que tenhamos medo de colocar em risco trabalhos ou amores com um ato sincero. Só que às vezes não parece certo esconder, como no caso de um envolvimento amoroso com um soronegativo. E então, o quê fazer? Se contarmos, nos arriscamos a sofrer rejeição. Se não contarmos, nos arriscamos a sofrer rejeição caso algum dia descubram, além de padecermos com a consciência. É como o enigma da Esfinge!

Bem, eu não sou nenhum oráculo, então só posso falar da minha experiência. Até acredito que ela possa servir para ajudar a sanar as dúvidas de alguém, mas é lógico que cada caso é muito particular e variável. Dito isso, vamos ao que vivi…

Assim que recebi meu diagnóstico, uma das primeiras questões a pipocar na minha cabeça foi a de contar ou não aos outros, e em quais circunstâncias fazer isso. Acabei contando para os meus amigos, o que era escolha e direito meu, sem conflitos. Foi então que me perguntei como deveria agir no caso dos relacionamentos amorosos. Para mim, é lógico que o direito de partilhar uma informação íntima minha é meu e de ninguém mais. Só que se uma pessoa vai se envolver emocional ou sexualmente comigo, talvez merecesse saber que tenho HIV. Ou será que não?

Não sou nenhum santo. É claro que não estou disposto a pagar o preço de me expor a qualquer pessoa. Para fins práticos, tanto eu quanto o outro temos que nos proteger e pronto, independente de conversa. A AIDS não tem face, então é preciso tratar todas as pessoas como transmissores em potencial, já que é exatamente isso que elas são. Diga-se de passagem, um dos maiores problemas da doença é que a maior parte dos infectados ainda não sabe da sua condição, o que é mais um motivo para não vacilarmos na proteção.

Eu sei e me trato, o que faz com que as chances de infectar alguém sejam praticamente nulas. Com a medicação, a concentração do vírus no sangue fica próxima de zero. Só não podemos falar em cura porque o vírus fica dormente e volta a atacar se os remédios forem interrompidos. Além disso, eu sei que não devo me reinfectar ou contrair novas doenças, o que faz com que eu dê ainda mais atenção ao uso da camisinha. Por fim, em caso de acidente, é possível evitar a contaminação com um coquetel de remédios ministrados nas primeiras 72 horas após o incidente. Como eu sei que tenho HIV, sei que preciso agir de acordo com essas regras, e portanto é muito improvável que deixe alguma de lado por ignorância ou preguiça.

Enfim, falei disso tudo para admitir que nem sempre abri o jogo com meus parceiros sexuais. A questão ética existe, talvez eles tivessem o direito de saber. Mas como essas relações eram puramente sexuais, concluí que o preservativo já era proteção suficiente. O problema maior, é claro, é quando entram em jogo os sentimentos.

A ideia de que eu pudesse perder alguém por algo que não poderia mudar sempre me assustou. Eu cheguei a ensaiar as cenas dramáticas de rejeição que viveria, talvez porque no fundo considerasse isso uma justa punição pela minha irresponsabilidade. Por outro lado, sempre pensei que alguém que me rejeitasse por isso seria um idiota preconceituoso e desinformado, e que portanto eu estaria melhor sem ele e talvez a “saída do armário” servisse como um bom teste.

Bem, acabou que tudo deu certo. Não sei se as paixões eram muito grandes ou se as pessoas estão mesmo mais tolerantes hoje em dia, mas eu nunca fui rejeitado por alguém por causa disso. A minha escolha ética foi contar apenas para aquelas pessoas com quem sinto que a coisa pode ficar mais séria, antes de um primeiro contato sexual. Em geral, o que acontece é de a pessoa procurar se informar melhor, fazer alguma pesquisa, e depois terminamos na cama do mesmo jeito e sem culpa.

Repito, isso é o que tem funcionado para mim. Algumas pessoas preferem falar logo para todo mundo antes de qualquer coisa, enquanto outras passam a vida inteira sem abrir o jogo. São escolhas. É muito angustiante ser tomado por questionamentos éticos, mas também é horrível ser tratado como saco de pancadas. Então o quê fazer? Como resolver o enigma?

No equilíbrio, me livrei de ser devorado. Foi como derrotei a esfinge.

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