Sete dias com AIDS


Há sete anos que eu convivo com o HIV e até hoje me pergunto se já caiu a ficha. Tive sorte porque quando me infectei o diagnóstico não significava mais algo tão sinistro quanto no início da epidemia. Além disso, não tive nenhum problema de saúde ou de rejeição ao tratamento. Só senti o peso da “doença” nos sete dias antes de abrir aquele envelope…

Eu fazia exames periodicamente. Por consciência pesada ou por hipocondria, ou talvez por uma sensação de que por ser gay, mais cedo ou mais tarde a AIDS me pegaria. Eu sei que o vírus não julga sexualidade e que não há nada de errado em ser gay – adoro – mas cresci nos anos 90 e ainda peguei algumas daquelas informações mais alarmistas sobre a doença. Hoje, tudo é diferente. Contudo, o “fantasma da AIDS” ainda aparece na lista de temores dos pais de filhos que se assumem homossexuais, então devo ter absorvido alguma coisa disso.

Aquela bateria de exames foi diferente porque me ligaram em dois dias, pedindo para fazer uma nova coleta. Quem atendeu a ligação foi a minha mãe, mas eu estava dormindo, então ela só me deu o recado depois. Era uma sexta-feira, então eu só poderia fazer o exame na segunda e o resultado só ficaria pronto na quinta. Foi quando começaram os meus sete dias de calvário…

Eu sabia que para o laboratório ligar e pedir mais sangue, alguma coisa estava errada. Tinha feito sei lá quantos mil exames, mas é óbvio que a minha maior preocupação era com o de AIDS. Como não poderia deixar de ser, a primeira coisa que fiz foi jogar “laboratório pede segunda coleta de sangue” no Google e fiquei tentando me convencer de que poderia ser só alguma questão técnica qualquer, mas eu sabia.

Toda a minha vida sexual ficou passando feito um filme na minha cabeça, e eu tentei me lembrar de cada camisinha usada ou das vezes que beijei e meus lábios estavam rachados por causa do frio. Pensei em cada cara que levei pra cama, lembrando se algum parecia mais magro do que o normal ou se tinha alguma mancha pelo corpo. Então, comecei a maldizer a minha sina, já que tinha provocado isso com uma mistura de conduta sexual e burrice.

Falei sobre o teste com meu namorado e com meus dois melhores amigos, e imagino que todos tenham ficado preocupados, mas eles correram em dizer que tudo ficaria bem. Eu fiz drama, dizendo que me mataria se o resultado fosse positivo. Os dias passaram, e em pouco tempo eu fui buscar aquele envelope que mudaria a minha vida.

Eu gostaria de poder dizer que só passei aqueles sete dias com AIDS. Que abri o envelope e pela primeira vez a palavra “negativo” significava uma coisa boa. Mas olhando pelo lado positivo – essa foi a primeira piada que fiz com isso e daí o nome da coluna – aquela resposta me libertou. A expectativa era desesperadora e agora que eu tinha certeza, não precisava mais ter medo.

Eu liguei para meu namorado e para o meu melhor amigo, e depois fui ao médico. Em casa, falei com minha mãe e com a minha melhor amiga, que precisou que eu assegurasse que não se tratava de mais uma das minhas brincadeiras de mau gosto, para acreditar. Em seguida, fomos todos encontrar um casal amigo meu e aprender mais sobre a doença, já que um deles é médico. Essas pessoas todas me amam e estavam com medo, então me vi no papel inusitado de consolá-las, assegurando que estava bem.

Eu não tinha AIDS, tinha apenas o vírus HIV. É claro que não era a coisa mais desejável do mundo, mas também não era pior. Eu não posso dizer que só vivi aqueles sete dias com “AIDS” porque ninguém sabe o dia de amanhã, e talvez eu tenha algum problema e desenvolva a doença, e aí sim volte a me sentir “ameaçado por essa sombra”. Até agora, foram só aqueles sete dias mesmo. Com o HIV, convivo faz sete anos e vai saber, de repente os tratamentos me permitam viver até setenta ou setenta e sete!

Eu me pergunto se “minha ficha caiu” por causa dessa sensação de tranquilidade, de aceitar que isso agora é parte de mim. Por outro lado, penso bastante nas implicações filosóficas dessa condição e do estigma associado, na minha vida e nas minhas relações. Foram esses pensamentos que me motivaram a escrever um texto sobre/para o ator Matthew McConaughey, que ganhou um Oscar por sua interpretação de um soropositivo, no início do mês. Mandei o texto para site, que o publicou, e fui convidado a escrever esta coluna, para dividir essa parte da minha história com os leitores.

Acho que tanto para mim quanto para vocês, será muito positivo. Tum, tum, tss…

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