Por favor, salvem a masculinidade!


Homens que se roçam em outros homens, só na “brodagem”, mas cultuando o machismo e o conservadorismo. Ser gay pode, mas sem esses papos de comer bunda por aí. No máximo, um bola-gato discreto. A propaganda dá o recado: o futuro da “Homenidade” está nas mãos dos homens com H, que devem atender ao pedido de socorro da espécie!

Bichas recalcadas? Avatares da homofobia internalizada? Homens que sentem tanta dificuldade em resistir e não sair dando para todo mundo, que precisam ter “orgulho hétero”? Hoje, no Globo Repórter em Dando Pinta. Aliás, essa coluna é praticamente uma encomenda, já que  tinha outra pronta sobre a disputa casamento/pegação, que será publicada semana que vem. Contudo, tanta gente veio falar comigo sobre os G0ys, assunto de um post da revista Lado A, que não pude ignorar o assunto.

Apesar do discurso de rejeição a rótulos, é interessante notar que sempre os procuramos. A diferenciação frequentemente atribui valores, ficando mais fácil de nos colocarmos no grupo que consideramos correto, sem medo de julgar os outros. E com os g0ys, acontece isso.

“G0YS representam a maioria dos homens, que por acaso têm profundos sentimentos por outros homens e optam por expressá-los em uma atmosfera de puro respeito, sem o menor indício de degradação moral. Uma abordagem sóbria, libertária de amizades masculinas. Homens, como nós, realmente acham imagens e estereótipos que são promovidos dentro da chamada “comunidade gay” repugnantes para a nossa sensibilidade masculina”, afirma o site g0ys.org, que levanta a bandeira desta nova comunidade. “Sabemos instintivamente que amar outros homens não tem nada a ver com mudança de gênero, travestismo ou fazer o papel feminino na cama! A natureza do G0YS rejeita qualquer coisa que tenha a ver com brincar com o interior do ânus de outra pessoa. Portanto achamos toda a noção de ‘sexo anal’ suja, degradante e não-masculina”, explica a página.

Como não poderia deixar de ser, o outro grupo em questão – o dos gays – rejeita a novidade. E é lógico, depois de tudo que enfrentamos para assumir a identidade gay, é difícil aceitar um grupo “novo” de pessoas, com um discurso moralizante tão antigo!

O que queiram fazer ou não com seus rabos, é problema deles. Cada um tem um, que use como quiser. Inclusive, todos deveriam parar de regular sexualidade alheia e aceitar que no mundo existe de TUDO e sempre existirá. Agora, reforçar o preconceito contra a comunidade, demonizando práticas e comportamentos, para tentar burlar o preconceito e seguir gozando das vantagens de dominante, é foda! Quer dizer, não é, né?

Vamos analisar o discurso maravilhoso da propaganda do desodorante Old Spice Girls?

https://www.youtube.com/watch?v=Jx9MFSYExK0

Bem, para que seja preciso comprar um produto “com partículas de Cabra Macho” para se afirmar, a coisa deve estar tensa mesmo. Será culpa dos gayzistas? Das feministas? Será mesmo que o “homem macho” está perdendo seu precioso lugar, e por isso finalmente sente a pressão de lutar por seu espaço? Por que os dois discursos, do movimento G0y e do “salve a Homenidade”, são tão parecidos? E além deles, até entre os que se definem bem como gays, a exemplo da comunidade ursina, por quê ainda há tanta homofobia?

A resposta está na construção da masculinidade, que é frágil por definição. É tanta coisa que NÃO PODE, que fica impossível não incorrer em “erro”. Nesse clima, tornamo-nos “vigias do comportamento”, seja o nosso ou o alheio. O afeto entre homens é tabu – mesmo nas relações de amizade – e a punição é a castração social agregada à pecha de VIADO. Como é muito difícil manter um sistema desses, as “rachaduras” estão começando a aparecer.

old spice
Imagem gentilmente cedida por Bixa Depressão.

Os homens sempre sofreram pressão para “carregar o mundo nas costas”. É fácil ocupar a posição privilegiada numa sociedade opressora, mas manter a imagem de pai, de marido ou de macho, tem seu custo. Dói. Dá trabalho. Exige atenção constante. E num mundo que, apesar dos percalços, caminha para o respeito à diversidade condizente com o ideal de “vida moderna”, é ainda mais difícil que um homem consiga ser feliz sob moldes tão retrógrados.

Não há nada de negativo em estimular atitudes afirmativas da identidade masculina. O problemático é construí-la com base na opressão do feminino e na ridicularização do efeminado. Não é necessário que seja assim. Esse modelo está mesmo com os dias contados e não adianta que uma parcela da população se agarre de forma tão ferrenha ou que tenha reações tão virulentas à qualquer tipo de oposição.

O progresso é lento e inexorável. Precisamos salvar a masculinidade? Sim, mas o caminho para isso não é endurecer as amarras que a tornaram tão insuportável. É entender que ela é só outra parte da experiência humana, com toda sua diversidade. Não dá para oprimir os homens para que eles sigam oprimindo o restante da humanidade.

Sem evolução, há a extinção. E no caso da masculinidade, do jeito que é, alguém vai sentir falta?

Permita-se. Seja livre. Mudar o mundo é fabuloso!

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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