Beleza, uma certeza


Posso ter rumado pelas Humanas mas nutro de um certo fascínio pelas Ciências Exatas. Embora a Matemática desperte admiração e preguiça, a Física, mesmo a que aprendemos na escola, me abriu os olhos para o que é ter certeza. Algo complicado pruma criança contestadora, educada num colégio religioso.

A gravidade, por exemplo, não importa como – de onde ou no quê você acredita – ela age indistintamente sobre todos nós. Sim, ela não é a mesma no espaço ou na lua, mas até aonde nos interessa ela é igual pra todos. E não dá pra fingir que ela não existe ou contextualizá-la sócio-culturalmente. Ela é relativa, mas incontestável.

Agora, o mesmo já não pode ser dito sobre beleza. Apesar de sermos bombardeados por algumas “certezas” sobre ela.

Em 2003 eu tinha a personificação de uma dessas certezas da beleza: Ana Paula Arósio. Isso até mostrar uma foto dela para uma amiga ianque, que não apenas discordou de mim mas reagiu como se tivesse nas mãos a foto de uma criança faminta com lepra. Talvez a reação se deu pela minha insistência em defender o exemplar de beleza “do meu país”. O resumo é que só arranquei um “bonitinha” e fiquei com sérias dúvidas sobre a minha associação entre beleza clássica e unanimidade.

Desde então nunca mais consegui olhar pra alguém, considerado bonito, e não achar detalhes que fugissem às proporções faciais que aprendi nas aulas de desenho. Passando a depositar o meu interesse pelo magnetismo e/ou fascínio de algumas pessoas. Não que eu esteja aquém de conceitos estéticos, apenas tento sempre contextualizá-los.

Sim, contextualizar. Porque beleza não é apenas subjetiva, é construída. Cientes ou não, somos “sujeitos” a interpretar certas características como aceitáveis/desejáveis e outras não. Num sistema binário bonito X feio que não permite meio-termo. Há gradações de beleza, mas a feiúra parece só haver uma: tudo que não se conforma aos cânones de idealização estética.

Não estou dizendo que o seu “gosto” é maquiavelicamente construído pela mídia e outros referenciais. Só não podemos esquecer que antes mesmo de aprendermos a falar ou avaliar temos alguns ideais enaltecidos em detrimento de muitos outros que são omitidos. O que torna quase impossível não creditar, a esta massificação e omissão, certos “limites” individuais e coletivos.

Imagine, agora, que a sua realidade fosse como a de outro país miscigenado como a África do Sul, onde capas de revistas e programas de televisão representam mais de um tom de pele, e majoritariamente o não-caucasiano. Ou a de um país como o Japão, onde por mais ocidentalizados que possam ser as feições de alguns modelos, eles continuam representando boa parte da população. Será que o seu “gosto” seria o mesmo nessas circunstâncias?

Talvez nada disso seja surpreendente, mas o discurso de Lupita Nyong’o sobre a aceitação da sua própria beleza, mesmo crescendo entre revistas que preferem pintar modelos brancas de preto a usar modelos negras, iniciaram-se algumas questões sobre o caráter político dos conceitos estéticos. E não me refiro a falta de representação que oprime a aceitação da diversidade, mas como cada um é capaz de causar uma “revolução” por simplesmente considerar aprazível o que foge aos padrões. Seja em nós mesmos ou nos outros.

Um amigo meu me mostrou um texto que defende que Lupita, “deliberadamente”, confronta as estruturas “tradicionalmente brancas” de beleza. Uma acusação que responsabiliza o fato da atriz ter escolhido vestidos, maquiagem e acessórios que caiam bem com sua tez como as armas de Lupita em se promover como ícone de estilo para meninas do mundo inteiro. Realmente, um horror!

O que faltou ao autor foi captar que a pretensão de todos que passam pelo tapete vermelho é não ser gongado causar uma boa impressão aos fotógrafos e ao mundo, de certa forma. Mas como o repertório estético desse autor parece ser limitado, deve ser realmente surpreendente aprender como algumas jóias se sobressaem numa pele mais escura e como um vestido pastel não fica “aguado” sobre a mesma.

O fato é que a auto-aceitação da Lupita se tornou uma arma política numa cultura que permanece a longos passos da inclusão de outros referenciais que não os europeus. Distantes e relutantes em se livrar da colonização estética a qual estamos submetidos.

E é por acreditar que, mesmo reféns de tal colonização, somos também responsáveis pelo nosso repertório estético. Em tempos de Tumblr, é fácil apesar de toda pornografia encontrar páginas dedicadas a referências diversas do nosso. Claro que há o risco de simplicarmos o exótico e o tornar objeto de adoração dissociada de humanidade. Mas aí, já posso falar sobre isso em outro publicação.

O importante é tomarmos consciência de que a mídia é parcial e exerce influência no  “gosto” de cada um de nós. E que, hoje em dia, estamos todos munidos de catálogos mais plurais do que os quais nos oprimem de forma mais acessível, cotidianamente. E que a eleição ou preferência de um referencial sobre o outro é um preconceito a ser combatido em cada um de nós. Mesmo que o objetivo seja o egoísmo de não cobramos o “ideal” da nossa realidade.

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