O médico e o monstro…


A notícia foi como a imprensa gosta: bem polêmica! Um conceituado médico foi preso no Rio de Janeiro por tentar subornar policiais, após ter sido flagrado fazendo sexo com um taxista, dentro de um carro estacionado numa rua da cidade. Para completar, ainda portava drogas! Um “prato cheio” para a “patrulha do respeito”…

Bem, fazer sexo em lugares públicos é o fetiche de muita gente, especialmente pelo risco de ser pego, e talvez fosse essa a onda dos caras. Não faltava dinheiro e nem transporte para o motel, então esses dois homens adultos escolheram se colocar nessa posição. Agora, estão arcando com as consequências, mas essa situação não é tão “preto no branco” assim…

O “sexo marginal”, que acontece nos “banheirões”, cinemas, parques desertos e carros estacionados, ou até nas festas de Floripa, é parte da cultura gay em sua gênese. Na verdade, essas “escapadas” foram a resposta necessária à repressão sexual que tomou o Ocidente com a ascensão do Cristianismo, sendo as práticas homossexuais apenas mais um item da lista de “frutos proibidos”. Como o  proibido é mais gostoso e o cerceamento da sexualidade feminina era a norma, não é de espantar que a viadagem se escondesse nas sombras. E da cultura para o fetiche, é um pulo.

Quer dizer então que defendo a libertinagem do tal médico? De forma alguma. Isso não me cabe. O que é crime é crime, e cabe à justiça a questão. O que eu acho injusto é o tratamento dado ao caso pela opinião pública, que não perde a chance de demonstrar seu fascínio com as minúcias do mundo gay. Ora, para completar a “piada pronta”, a especialidade dele é urologia! Nos comentários, o tom jocoso predomina. Fala-se em exames de próstata, evocando a alegoria de pobres homens heterossexuais sendo libidinosamente dedados por esse médico, como se todo “macho hétero” fosse irresistivelmente atraente ao “homossexual predador”.

Na “república dos recalcados” que vivemos, é um prato cheio termos um homem com dinheiro e respeitabilidade social – conquistadas através da educação formal – nessa situação. O médico é transformado em monstro, não só pelos atos criminosos, mas principalmente pelo “crime maior” da homossexualidade. Ele, que gozava de posição superior, inclusive em relação ao homem com quem estava se relacionando, OUSOU jogar fora os privilégios que seu gênero e status concedem pela mais desprezível das coisas: sexo. E ainda por cima, gay.

Será que se ele estivesse comendo UMA taxista gostosa no carro dela, aproveitando a rebarba do Carnaval, o episódio teria o mesmo desfecho? Tirando a parte do suborno e das drogas, alguém ligaria? Algum paciente que talvez esteja se sentindo violado porque não sabia que seu urologista é gay, estaria preocupado? A culpa não seria da mulher que, visando dinheiro, teria seduzido o distinto doutor? E se, hétero, ele fosse ginecologista? Será que ele não ganharia um tapinha nas costas por ganhar dinheiro mexendo no que gosta?

Esbravejem o quanto quiserem, mas a verdadeira “ofensa” nessa história é que tal personagem queira usar de seu poder para escapar da “justa” punição por aquilo que provocou. Não existe “ex-viado”, já que os privilégios da masculinidade são perdidos ao menor deslize, de forma irrecuperável. O “crime” em questão é que alguém que tenha a petulância de exibir sua “vergonha” em público, ainda por cima, tente fazer valer sua posição social para se safar, como se fosse permitido a um monstro desses arrumar “um jeitinho” de reescrever sua história.

O médico é de fato um monstro, tal qual o Mr. Hyde. Uma persona sinistra que se utiliza das sombras para gozar da imoralidade e dessa forma, sustentar a sanidade de seu Dr. Jekyll. É o mesmo monstro que domina pais de família respeitáveis durante o horário de almoço, padres que cozinham seus crucifixos nas saunas, adolescentes enrustidos e empresários que aproveitam cada viagem para atualizar o catálogo de michês. É o monstro desse “pecado nefando” que causa repulsa e atração na mesma proporção, simplesmente porque não admitimos que o prazer possa ser livre de rótulos e julgamentos. Aliás, heterossexuais reprimidos por normais sociais “escapam” do mesmo jeito…

O monstro está dentro de todos nós. É a visão negativa de uma prática sexual, que nos é martelada todos os dias em cada missa ou piada preconceituosa, ou sempre que uma manchete de jornal coloca no mesmo parágrafo as palavras “crime”, “sexo” e “droga”. O verdadeiro monstro desse caso é a homofobia, que só consegue existir se demonizar a homossexualidade. A moral nada mais é do que um cabo de guerra entre forças desiguais, dentro de cada cidadão. No fim, todos brincamos de Jekyll e Hyde.

A polêmica com o vídeo de pegação gay no carnaval de Floripa – que é o assunto da semana no mundinho – é a mesma. Toda a nossa homofobia internalizada se manifestando, porque “é por isso que gays não são respeitados”, como se festas hétero fossem verdadeiras procissões! Tá boa, néam?

Se somos respeitáveis, somos médicos. Se não nos damos ao respeito, monstros.

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