A bolha em que habito


Certa vez fazendo um trabalho na agência, tive que “inventar” ícones para valores como inovação, arrojamento, convicção e outros atributos desejáveis em um funcionário. A partir desse esforço, acabei pensando em um ícone para ignorância, e a minha primeira ideia foi um oito deitado, porque ela é inesgotável. Hoje, se me propusessem alguma sugestão, diria algo relacionado a comentários na internet. Ou então uma caixinha de surpresas. Porque quando menos se espera ela surge e mais próximo do que gostaríamos.

Seja por compartilhamento de um meme ofensivo disfarçado de piada, seja por defender algum pensamento quase nazista como uma indiscutível opinião, às vezes nos deparamos com posts que nos ofendem e nos magoam, publicados com a maior desfaçatez, por pessoas que nos são próximas. E aí? Como reagir a isso? Discutir cansa e bloquear é realmente mais fácil. Mas o banimento nem sempre é tão simples.

Toda vez que cismo em me aventurar na terra de ninguém dos comentários online, sempre passo um tempo vendo gifs de gatos e outros bichos fofos depois. Sério! É tanta agressividade motivada por desinformação ou completa falta de empatia que um pouco da fé que tenho na humanidade se esvai.

Contudo, é mais confortável encontrar opiniões tão nefastas assinadas por avatares desconhecidos ou até mesmo anônimos, do que descobrir que um deles bem na minha timeline.

Há duas semanas atrás, um conhecido que sempre encontro em comemorações de fim de ano fez um desabafo. Apesar dele ser o meu referencial pro que é dar pinta, ele justificou espancamentos homofóbicos por falta de decoro das gay com os bofes. Daí pra baixo. E quando fui falar com os meus amigos que são o nosso elo de separação, descobri que eles deixaram de assinar o seu feed por posts depressivos como este. Então segurei o esporro, apesar da vontade de expurgá-lo de todo o machismo e homofobia que habitam nele.

Infelizmente, as coisas não são desse jeito. As pessoas tem que estar abertas para a ideias novas, que, muitas vezes, contradizem às nossas referências de mundo habituais. Então bloquear o acesso a esse tipo de mensagem que nos magoa ou nos ofende é realmente uma saída… Sensata. Entretanto, não creio que seja sempre a melhor.

Confesso que já deletei um bando de conhecidos da minha lista virtual de amigos, e até real também, dependendo da publicação-motivo. Porém, acredito que me cercar numa bolha onde nada me atinge,  não me preparará para encarar essas situações adversas no mundo real. E a partir disso, escolhi alguns “coxinhas” pra acompanhar à distância. Não excluo, só não me sujeito a ser surpreendido.

Considero fundamental, como ativista-wannabe, estar familiarizado com os argumentos de quem me contraria ou me oprime. Portanto, vejo as redes sociais como uma ferramenta para identificar onde e quando certas “opiniões” são formadas ou adotadas pela “massa”.

Não por um impulso masoquista, mas porque, embora discutir online via chat ou comentários seja realmente uma perda de tempo, uma vez habituado a eles posso evitar o choque que seria tomar conhecimento dessas ideias pessoalmente. Ao me tornar pronto para entender esses argumentos – ou falta deles – posso facilmente neutraliza-los numa discussão ao vivo. E também evito de sair sacudindo as pessoas.

Então, por mais que acredite que nem todo mundo deva injetar sangue de barata nas veias, considero aconselhável uma bolha feita de argumentos e contra-argumentos. E não uma falsa proteção criada pelo distanciamento de certas correntes de ideias. De uma coisa podemos ter certeza, mais que infinita, a ignorância é inevitável.

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