Um Conto de Carnaval…


É sexta-feira. O frio úmido do ar condicionado como único escudo contra o calor senegalesco que faz lá fora. O sol quase se pondo e mesmo assim, um inferno. O tempo não passa, sexta é sempre assim. 17:55… Falta pouco. Time goes by so slowly… Essa sexta é especial. 17:57, 17:58, 17:59… É nessa que começa o carnaval!

18:00. Liberdade. Ele afrouxa o nó da gravata e desabotoa os punhos da camisa, escritório agora, só na quinta-feira “de cinzas”. O calor é nojento. O trânsito está pior do que o costume, mas nada disso importa. O ar já está diferente. Tem gente fantasiada na rua e música por todo lado. É só o começo da festa…

Ele mal chega em casa e já abre uma cerveja. Toma um banho rápido e coloca a fantasia. Meias 3/4 tipo arrastão e uma calcinha. Fica melhor enfiando no rego? Nem tanto. Vai acabar entrando no movimento mesmo. Um vestido agarrado de chita e duas meias enchendo os peitinhos. Faz a barba pra não ficar tão bizarro. Batom vermelho na boca e um pouquinho nas bochechas, espalhado tipo blush. Sombra nos olhos e uma peruca barata. Uma verdadeira mocreia, feia como a fome! Dinheiro e camisinhas no sutiã. Ele está pronto para sair.

Os amigos já estão no bloco, de cerveja na mão. Um baseado aparece do nada e termina de expulsar o cansaço do dia de trabalho. É hora de perturbar a mulherada. Ele faz uma gracinha para uma menina feia, é carnaval. Pega uma que estava de shortinho. É a primeira. Os amigos ficam zoando, levantando o vestido, dando beliscões. Vem a segunda, mais cerveja, e a décima. Sente uma porradinha na bunda. É um menino com fantasia de bate-bola que passa correndo e grita “mulherzinha”. Hahaha! Ele se lembra de outro carnaval, vinte anos atrás, quando usou uma máscara parecida para atazanar o filho viadinho da vizinha. Sem saber, esse novo bate-bola se torna um fantasma. Um espírito de carnavais passados.

O bloco segue e as bebidas variam, assim como as mulheres. Perdeu-se dos amigos, mas encontrou uma loura linda com peitos enormes e boca quente. Amassos. Canto escuro. Bundão. Ela se faz de tímida, não quer deixá-lo abrir o shortinho… Ela ri. PORRA! É um traveco! Estava tão bêbado que pegou uma “boneca” e nem se tocou! Empurrão, protesto, não está com cabeça pra brigar. Vai embora. É chamado de “mulherzinha” pela segunda vez na mesma noite, mas agora sente o sangue subir. Vê seu reflexo na água podre da sarjeta. O batom borrado e as meias rasgadas. Uma mulherzinha mesmo. Uma puta de esquina que estava aos beijos com um travesti. Ele fica sóbrio na hora.

Para num beco para mijar. Está escuro e não tem como ser multado. Uma bichinha passa e fica olhando seu pau. Isso sim é uma “mulherzinha”, não Ele. Sente as bolas doerem pelo tesão recolhido, e sabe que até de calcinha é muito mais macho que um viado desse… Que se dane! Faz sinal e se esconde mais à sombra. Na escuridão, todos os gatos são pardos e essa nova boca – mais quente ainda – serve para esporrar todos esses pensamentos, essas lembranças e perguntas que resolveram atrapalhar a folia.

Mas a sexta foi só o começo. No sábado, a patolada dos amigos já tem outro sabor, de excitação e de vergonha. Precisa de cachaça e outra rodada de mulheres. Pega umas quinze. A rua lotada e mãos abusadas entrando por seu vestido. What it feels like for a girl? Outro beco, outra bicha. Um beijo na boca. Quem é a bicha agora? Foi tudo culpa do álcool e do carnaval. No domingo, a ressaca é moral, mas passa como todas as outras. Bebe mais porque não quer inibição, quer gozar. E goza. Comendo outra bicha entre dois carros, enquanto um cara assiste e se masturba. Acaba dando uma pegadinha nele. É carnaval.

Na segunda, Ele chupa. E na terça, flerta descaradamente com um barbudinho de batom e vestido, quase exatamente como Ele. Beijam-se na rua e se amassam num canto. O cara é gay, foi pro bloco com um bando de viados, mas está igual a Ele. É o espectro do carnaval presente. Dedos, apertões, lambidas… O cheiro de mijo, de vômito, de cerveja e de gelo derretido dá ainda mais tesão. Tudo é proibido. Todo perfume bom tem um quê de podridão e a graça de uma regra é quebrá-la. Esse homem é diferente, não é servil como as outras bichinhas. A barba é como uma lixa. Ele se vê de costas e sente a calcinha ser puxada para o lado. É a bebida. O impensável. A dor, o fedor, o suor e o gozo. Quem é a bicha agora? Ele.

Na quarta, descansa. Chega de loucura. Esse carnaval se transforma em segredo. Vai à casa dos pais para um almoço tranquilo e para recobrar a normalidade. Ninguém percebe nada de diferente, está tudo bem. Quando a mãe vai à cozinha, o pai faz piada e pergunta do bloco das piranhas e das piranhas que a solteirice do filho permite conhecer. “Quando casar, vai ser diferente! Vai ficar amarrado em casa, chupando o dedo.” Preso. Reprimido. Castrado. O pai é o fantasma dos carnavais futuros.

Na quinta, terno e gravata. Tudo volta ao normal. Quem é a bicha agora? São eles. Ele, não.

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