Bloco das Piranhas


Shortinho, saia, mini-saia,  biquíni, top, meia-calça, sutiã, cinta-liga e tantas outras peças de vestuário não “tornam” quem as veste em uma mulher, apesar da ideia de feminilidade embutida nelas. Rapazes podem usá-las sem se transformar magicamente numa moça. Ops, quer dizer…

É carnaval! Em muitas cidades é a época em que é permitido aos homens sair na rua com trajes femininos sem que a sua virilidade seja questionada. Além disso, por mais que seja engraçado perceber como vários homens, héteros e não, se sentem confortáveis ao fazê-lo, acaba que surge a seguinte dúvida: por que será que todos optam pela imagem da mulher-sexualidade ou da mulher-alvo-de-chacota? Será que eles temem ser taxados drag queens caso representem mulheres que lhes inspirem respeito?

No ano passado, no metrô, havia um grupo de 5 “piranhas” acompanhados de uns outros 4 amigos não fantasiados. Todos estavam devidamente empolgados e alcoolizados e, embalados no espírito da “brodagem” os não-fantasiados bulinavam as “piranhas”. Até aí tudo bem, muitos já presenciamos isso e nem é difícil notar alguma malícia dos “bofes” da situação. O que me chamou a atenção foi que eles estavam fazendo essa cena toda para se insuarem para duas garotas.

Que meigo não?! Foi nesse momento que a ficha caiu, pois a troca de papéis de gênero durante o carnaval não é motivo de comemoração ou de exaltação. Os “piranhas” assim se vestem por concordar, em algum nível, com a “coisificação” feminina. É um meio festivo de reafirmar que quando uma mulher se veste com a quantidade mínima de roupas, está pedindo que os outros as incomodem, mesmo sabendo que nos outros dias do ano isso pode levar a um processo de assédio. É durante o carnaval há essa oportunidade, fantasiando de certa forma, de exaltar a mulher “fácil”.

Talvez só tenha percebido isso nessa época porque, ao participar de corridas de rua usando shorts apropriados, pude notar que “botar as pernas pra jogo” significa que estou dando permissão de demonstrarem sua atração, repúdio ou indiferença ao ato. É como se um short significasse que a opinião de algum deles me validasse ou me fosse válida.

Sem dúvida, esse estranhamento foi fruto da novidade que isso representou pra mim. Porém, ao reparar que as garotas no metrô retribuíram a atenção, fui levado a imaginar que elas estejam mais aptas a filtrar esse tipo de comportamento.  Talvez tanto por hábito, quanto por vaidade ou até machismo internalizado. O fato é que nunca mais consegui olhar para um “piranha” como antes.

Eles perdem a oportunidade de aprender com a fantasia e perceber que para muitas, o mesmo não ocorre porque estas queriam se divertir. E que nem todo mundo é obrigado a encarar assédio como uma forma de brincadeira!

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