Humanos Direitos


Você acaba de acordar e alguém bate a sua porta. É um oficial da justiça com uma intimação determinando que você deve segui-lo até a delegacia mais próxima, por algum erro cometido no passado. Sem mais. No recinto, você fica sabendo que o crime foi cometido na infância. Talvez ter “roubado” na contagem do pique-esconde, ou não ter obedecido aos seus pais na frente de uma visita. O fato é que a partir daquele momento você terá como punição a marca do “monstro” tatuada no rosto, bem abaixo do seu olho esquerdo, e como a sua falha foi social, todos estão aptos a julgá-lo e condená-lo quando bem quiserem.

Talvez essa trama não seja suficiente para ilustrar o que é ser vítima de preconceito, já que para alguns é necessário apenas nascer para carregar tal marca, mas o intuito é apresentar como a rejeição ou desumanização de alguém pode ser incrivelmente arbitrária. E que ser “direito” desde sempre é igualmente facultativo, pra não dizer tirânico.

Toda vez que passamos indiferentes por um morador de rua, involuntariamente estamos não apenas o marginalizando, mas recalcando o fato de que aquela pessoa não só poderia ser um de nós, bem como é exatamente como a gente. Com pai, mãe, possivelmente irmãos, avós e uma história de vida tão diferente da sua quanto o vizinho cujo nome você nem conhece.

Não estou dizendo que todos devemos adotar mendigos desconhecidos ou levá-los para um abrigo, até porque talvez nem seja isso o que eles precisem ou queiram. Desejo apenas exemplificar como somos capazes de ignorar a humanidade do outro, seja enxergando-o como coitado, ameaça, serviçal ou qualquer outro rótulo à mão.

Tal “cegueira” explica a maré “justiceira” timelines afora, mas não justifica a presunção de se acreditar apto a julgar e sentenciar quem quer que seja, sendo este culpado, suspeito ou inocente. Se alguém comete um ato “monstruoso”, isso não o torna um monstro ou indigno, ou anula o valor da sua vida.

O fato é que leis existem exatamente para regular a animalidade da nossa condição humana – que tem medo e ataca quando se sente ameaçada; e assegurar limites para o convívio social. Ao estabelecer punições aos que prejudicam os outros extrapolando tais limites – não que haja esperança de reparar o mal feito, pois aí seria exigir o impossível – procura-se conscientizar o errado do seu desacerto, fazendo-o perceber as consequências da sua infração. Agora, se o Estado e as leis são falhas, cabe a nós, enquanto cidadãos, corrigi-los, mas nunca com as próprias mãos. Isto não apenas significa rechaçar as próprias leis que se pretende defender, mas também estar pondo em risco todo e qualquer avanço que a sociedade tida como civilizada construiu.

Ao defendermos meliantes “de bem” ou não, estamos reconhecendo o outro como nosso igual, faltando apenas ampliarmos essa “compaixão” a todo e qualquer um. Enxergando-nos como dignos das mesmas revoltas e solidariedades. Pois se é fácil ignorar a humanidade naqueles que desconhecemos e encontramos em descaso, antagonizar os que nos atravessam nos faz não só esquecer a sua humanidade como também enxergá-los como monstros execráveis. Assim, colaboramos com um círculo de desrespeito e apatia que em nada ajuda com qualquer melhora sócio-cultural.

Não, eu não tenho a pretensão de mudar o mundo com esse post. Mas se conseguir fazer com que uma única pessoa perceba que acorrentar um suspeito a um poste só tem como mudá-lo para pior, fico feliz.

Caso você tenha interesse em ter uma noção melhor sobre a história dos direitos humanos, aconselho esse vídeo. Agora, se quiser um pouco mais de profundidade, recomendo a leitura da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que constitui um dos textos mais bonitos já escritos pelo homem. E que foi escrito – olha só – não pensando em defender bandidos ou minorias, mas todo e qualquer ser humano.

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