Somos todos homofóbicos. Ou só covardes?


Somos todos homofóbicos, pois do jeito que estamos sendo criados, não há como ser diferente. São os níveis da nossa homofobia que variam, e acabamos por agradecer – de forma muito justa, diga-se de passagem – quando eles podem ser considerados “baixos” em alguém. Contentamo-nos com esse pouco porque nunca conseguimos nos livrar do sentimento de inferioridade. Se formos agredidos, nos acovardamos. De repente, achamos que merecemos, né?

Homofobia virou palavrão. O termo é usado como escudo por aqueles que a propagam, numa inversão de valores que seria cômica se não fosse trágica. Basta que um homossexual fale em homofobia para que seja desacreditado ou taxado de paranoico ou ainda “gayzista com mania de perseguição”. A vulnerabilidade da população LGBT se torna chacota, nosso complexo de inferioridade, desculpa e voilà: as vítimas são eles e os homofóbicos somos nós!

É claro que nos sentimos inferiores. Todo tempo essa ideia é reforçada. Quando andamos na rua e um cara qualquer se sente no direito de gritar “viado” na nossa direção, somos lembrados de nosso lugar na sociedade. É o mesmo lugar da mulher, do pobre, do negro, do deficiente… É o lugar de baixo.

Os Movimentos de Orgulho existem para tentar reverter esse processo, tanto no âmbito social quanto no pessoal. Realizar as paradas traz visibilidade e qualquer vitória legislativa deve ser celebrada, mas a mudança mais valiosa ocorre dentro das pessoas. Quando transformamos a vergonha em orgulho, começamos a desconstruir o mecanismo da opressão. Retomamos nosso lugar como seres humanos.

Não que oprimir não seja humano, ao contrário. Somos o único animal que busca validação no menosprezo de seus semelhantes. Mas quando falamos em humanidade, pensamos nas características que nos afastam do que consideramos selvagem. Pensamos nos avanços tecnológicos e culturais que permitiram a nossa civilização. A questão é que opressão não é uma coisa civilizada, ou pelo menos não deveria ser.

O caso recente de um menor infrator preso a um poste por “justiceiros”, no Rio, denunciou nossa selvageria. Nos comentários sobre a notícia, uma avalanche de apoio ao ato bárbaro e o lamento pela falta de gasolina e isqueiro para terminar o serviço. O que é isso, gente? Validar um ato desses é armar uma bomba relógio. Já existem relatos de que os tais “justiceiros da classe média” estão atrás de moradores de rua e – surpresa! – gays. Tudo em nome da “limpeza” do bairro, claro. E quanto tempo vai levar para alguém reagir? Pra algum jovem universitário branco e limpinho desses acabar morto por um dos perseguidos, e a opinião pública pedir a cabeça de todos numa bandeja? Com a violência disfarçada de “tomada de rédeas”, logo partiremos pra defesa da moral e dos bons costumes, e num instante veremos institucionalizada a caça ao mais fraco. É mais fácil perseguir aqueles que a sociedade despreza, já que tirando uma mãe ou outra, eles somem e ninguém liga.

Mas e se a gente bater de volta? De repente a solução seria criar um aplicativo pra monitorar áreas de perigo e soar um alarme quando entrarmos na Rua Augusta em São Paulo ou no Aterro do Flamengo no Rio. Aí a gente saca o revólver ou um taco de beisebol purpurinado, ou melhor ainda, juntamos um grupo de fortões do Grindr pra um grupal diferente: dar porrada em playboy metido a macho. Seria uma surpresa e tanto, pois somos considerados alvos fáceis por não reagirmos. Viramos alvo por causa da nossa própria homofobia.

Nós contribuímos com ela quando reproduzimos o machismo. Quando achamos “desnecessário” o nosso amiguinho efeminado e fazemos piadinha sobre o famoso que discutiu com um “amigo” na rua, ou achamos que o carinha do BBB está dando muita pinta. É o mesmo que dizer “bate mesmo, sou viado e mereço”. E pensando assim, estamos derrotados, não importa o que aconteça.

Temos que reagir sim, mas primeiro mudando o nosso pensamento, ao criarmos um verdadeiro senso de comunidade, para além da balada mais “bombante” ou da diva mais pop. Temos que pressionar para que a legislação nos contemple e que a lei seja cumprida, pois este é o único caminho, por mais demorado e frustrante que possa ser. Responder com mais violência só aumentaria a força do ataque seguinte, num círculo cada vez mais sangrento.

Homofobia é covardia. É a covardia em lidar com a diversidade dos próprios sentimentos, primeiro dentro de si e depois em relação à sociedade. Daí vem o terror e a resposta fácil, que é a agressão física ou verbal. Somos todos um pouco homofóbicos porque fomos criados para isso. Com menos violência, de repente, um dia a gente consegue não ser covarde…

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

A coluna de hoje é dedicada à Panti, a persona drag do ator irlandês Rory O’Neill. Como eu e provavelmente você, ele foi vítima da homofobia, e minhas reflexões de hoje foram inspiradas em seu recente discurso sobre o tema. Vídeo em inglês, sem legendas.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página. Agora você pode me acompanhar também através do Brasil Post.

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