!!Estamos sendo usados!!


“Não, não, não! Ninguém merece essa velha tentando se promover em cima dos gays novamente! Será possível que ela seja capaz de tudo pra posar de relevante? E esse chapéu? E essa cara que mais parece uma máscara? Viram que ela quase caiu? Rainha… Só se for do marketing mesmo! Usando a gente pra aparecer… Tsc, tsc!”

No último domingo, Madonna se juntou ao Macklemore, ao Ryan Lewis, à Mary Lambert e à Queen Latifah para uma apresentação histórica no Grammy Awards: ao som do hit inclusivo “Same Love” – e de um pouquinho de “Open Your Heart”. Mais de 30 casais, de todos os tipos, trocaram alianças aos olhos do mundo. Felicidade pura, exceto por alguns comentários apontando o oportunismo da performance. Surpresa: Comentários de gays! Oi?

É fácil de entender. Criticar uma coisa popular dá um verniz instantâneo de diferenciação. Mostra que você “pensa com a sua cabeça” e tem olhar crítico para não “seguir a manada”. Criticar a Madonna então, é ainda mais compreensível. Deus sabe como o ar de “sou foda” e aquele grill-dourado-medonho são irritantes! Pra completar, você ainda mostra que é uma bicha especial, que não bate palmas para tudo que essas pseudo-divas fazem – principalmente esta. Mas fica a dica: desta vez a injustiça foi feia!

Chamam tia Madge de “múmia”, como se a velhice fosse uma vergonha. É óbvio que é uma questão para quem está no mercado como “diva pop”, mas é justamente por causa da idade que ela já passou por muitas batalhas. Se hoje os gays gozam de certa liberdade, mesmo com alguns problemas, é por causa da luta de muitas pessoas, nos últimos 50 anos. Pessoas que muitas vezes arriscaram suas vidas e carreiras para fazer o que era certo. Pessoas como Madonna.

Em 1986, no auge do delírio antigay provocado pela AIDS, ela perdeu seu melhor amigo, Martin Burgoyne. Naquela época, ainda se acreditava que a doença pudesse ser transmitida até pelo ar, mas ela não o deixou de lado – inclusive pagou por suas despesas hospitalares – além de processar o luto se engajando no combate à doença. Mesmo hoje, ela luta ao nosso lado sempre que preciso, como foi o caso da apresentação no Grammy.

Macklemore, Mary Lambert, Madonna, Ryan Lewis, Queen Latifah

A música do Macklemore não é perfeita – ele faz muita questão de lembrar o tempo todo que não é gay, apesar de estar nos defendendo – mas é significativa. É uma pena que ainda valha mais quando a mensagem vem de um homem branco heterossexual cisgênero, mas pelo menos ela está sendo ouvida.

disse aqui que não devemos “aceitar esmolas”, pois o nosso direito não é moeda de troca e não precisa ser concedido. Temos que desconfiar quando opressores históricos, tais como a Igreja Católica, parecem mudar subitamente de opinião. Mas ainda que possa não ser a coisa mais sincera, é sempre melhor do que ordenar nossa execução. E isso, apenas quando falamos dos “inimigos”. É feio morder uma mão que nos é estendida…

No o panorama político atual, com situações extremas como a da Rússia e a da Nigéria, bem como perigos mal disfarçados como a nossa bancada evangélica, seria certo rejeitar o apoio dessas pessoas? De repente a música do Macklemore subiu vendeu mais no iTunes ou o nome da Madonna ficou nos trending topics do Twitter, mas e daí? O ganho transforma o ato político em mentira? Cantar sobre o amor e mostrar que ele vem em todas as cores, faz ele perder a força? Não, né?

Felizmente, a tia não está sozinha. De Lady Gaga à Kylie Minogue, passando até pelo Félix, temos uma legião de pessoas que precisam mesmo dos nossos comentários, likes e centavos para continuar com suas carreiras. Acontece que elas poderiam passar sem o risco. Para uma diva pop, basta uma jogadinha de cabelo e o séquito de gays está formado. Para uma novela, basta um único personagem marcante virando meme que a audiência permanece nas alturas. É claro que sempre se pode fazer mais, mas não é pouco alguém fazer um discurso sobre casamento gay pro planeta inteiro ver. Se estamos sendo usados, é por quem se beneficia da nossa falta de união: os fiscais de cu promotores da desigualdade.

Eu sei que é estressante estar nesse mundo caótico e conectado. Ao mesmo tempo em que sorrimos ao saber de um novo estado americano liberando o casamento homoafetivo ou torcemos pelos homossexuais da novela, sofremos com as imagens quase surrealistas da violência sofrida pela população LGBT. É aflitivo ter a certeza do que é correto e ver o errado sendo praticado. Mas isso é parte do momento histórico que atravessamos, de transição.

É graças ao apoio de amigos que não precisavam se preocupar com isso, como a Madonna, que sigo tendo esperanças de que essa transformação será para melhor.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

P.S importante e pessoal: fui aprovado para o curso de Ciências Sociais da UERJ (na posição 24, olha só!). Aceito os parabéns nos comentários. Podem aguardar uma coluna muito mais gayzista, vândala, femifascista, anarcopunk… The works! E com respaldo acadêmico, bitches!

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