De que cor é o Brasil?


Semana retrasada, um grande amigo meu veio me dizer de maneira indireta, sob pretexto de estar apenas repassando um comentário do namorado, que eu me daria muito melhor na noite se cortasse o meu cabelo.

Há pouco mais de um ano passei do black pro dread. Uma decisão que demorou uns 10 anos pra ser tomada, já que é “definitiva”. Então, enquanto ele insistia por uma recusa minha que fosse mais esclarecedora do que a óbvia “não estou afim”, tive que fazer a analogia de perder um membro, uma vez que pra mim cabelo não é só uma questão de identidade, mas parte de mim. Não sendo possível, então, imaginar um cenário onde eu reaja com felicidade em ter algo “amputado” de mim. Ainda mais por pressão social…

Mas esse post não é sobre o meu cabelo ou picumãs em geral, mas sim sobre como é complicado falar de etnia/”raça” nesse país miscigenado, onde só conheço brancos e negros/asiáticos/indíos/etc. Sinceramente, nunca vi alguém se declarar pardo, mestiço, de cor, misturado ou o que for. E no caso desse amigo, que por mais que eu considere etnicamente bem plural, ele se passa e se percebe como “branco”. O que não deixa de ser uma atitude que o isenta desse tipo de debate, pela “proximidade” com o status quo.

Inicialmente, eu gostaria de dizer que acho fascinante gente que passa por branco; que chama negro de moreno por medo de ofender; que só lembra de um antepassado negro quando acusado de racismo; que acha que descender de mais de uma nacionalidade europeia o torna, automaticamente, culturalmente mais ilustrado que o resto.

E não é minha intenção condenar quem, por ventura, se autointitula branc@ simplesmente por ter um tom de pele mais claro. Até porque, o racismo nos molda a todos e seria inocência achar que não é preferível se identificar com o referencial de normalidade. Todos gostamos de nos sentir aceitos e pertencentes a maioria, e é realmente acolhedor não se perceber por fora ou excluído do grupinho de pessoas admiradas por todos. Mas é complicado pensar num país “racialmente democrático” quando parece haver uma binaridade entre brancos (e os que passam por) e negros.

Também não estou dizendo que o modelo cultural de classificação europeu e ianque, que tem um quê de purismo ao considerar mistura de qualquer tipo como algo que torna dado indivíduo menos branco, um modelo mais ideal. E exatamente por isso acho necessário mudanças linguística e não apenas culturais para sairmos de nomenclaturas que não nos remetam a colonização e opressão dos povos não-brancos. Não somente porque palavras como: mestiço, cabloco, mulato, entre outras soam como algo mais próximo de um zoólogo do que um referencial de identidade para seres humanos.

Ser negro ou branco não nos diz apenas quem somos mas como os outros nos enxergam. Se encontrar no meio dessa escala de cores poderia ser interpretado como o fruto do encontro de pessoas que não limitaram seus relacionamentos aos “iguais”, caso vivêssemos de fato num país orgulhoso de sua miscigenação. No entanto, somos ensinados a entender um branco que se relaciona com outras cores como fetichista e, no caso inverso, como um negro interessado em adequação e ascensão social.

Na falta de palavra melhor, pardo eu compreendo como um tom discutível, atingível através de diversas combinações, e aceitável quando entendemos que ninguém de fato é da cor de um envelope, da mesma forma que ninguém é branco como papel ou preto como carvão. Mas o que eu gostaria de defender é uma palavra que subentenda o conceito de etnicamente plural; transcendente às binaridades de cor; ou apenas um enigma que não precisa ser decifrado, já que esse tipo de coisa não deveria importar.

Se eu pudesse sugerir uma palavra, seria algo próximo a pantônico. Esse catálogo cromático é muito representativo das várias nuances que uma cor pode ter, mesmo quando as pessoas classificam infinitos matizes numa palavra só. Mas existem os termos interétnico, assim como pluri e multiétnico também.

Mas o que eu gostaria de deixar claro é que nenhum tom de pele isenta ninguém da discussão de raça e etnia, em qualquer contexto sociocultural. Não é por ser ou passar por branco que alguém pode ignorar tudo que diz respeito ao racismo, na crença de que ele só afeta os negros, índios e o que mais for. Da mesma forma, ser homem não deveria servir de desculpa para não se informar sobre os males do machismo, assim como ser hétero não salva ninguém de ter dúvidas sobre a própria sexualidade.

No fim, de um jeito ou de outro, somos todos de cor.

Previous Quanto custa uma bicha?
Next !!Estamos sendo usados!!

1 Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *