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O polêmico PLC 122 equipararia a homofobia ao racismo, já que são ideias irmãs – a de que alguém é superior a outro, graças a uma diferença qualquer. Sabemos que as leis não resolvem nada sozinhas, muito menos quando tratamos de transformações sociais, e está aí o tititi dos rolezinhos para ilustrar isso. Mas o movimento negro tem a “vantagem” – se é que podemos usar tal palavra – das punições previstas em lei fazerem com que alguns episódios sejam um pouco mais discretos. Para a homofobia, vale tudo.

Recentemente, um adolescente gay – e negro – foi encontrado morto no centro de São Paulo, levantando suspeitas de crime de ódio. O caso foi registrado como suicídio, causando revolta em diversos setores sociais e sendo destaque até do Jornal Nacional, mas agora a família admite tal hipótese. Os detratores da causa gay estão em festa, rindo de como os defensores dos direitos humanos são “sensacionalistas”, sem perceber que o simples fato de podermos suspeitar de homofobia já é gravíssimo. Sem proteção, ser gay e sair de casa é praticamente pedir para morrer mesmo, como comprovam tantos casos que passam batido pelo noticiário. O episódio do “anúncio de negros” é bizarro e que bom que a comoção nas redes sociais serviu para que fosse solucionado rapidamente, mas cada caso de homofobia também mata. Ferir a dignidade humana é tão letal quanto puxar um gatilho…

Nosso racismo é velado. Ele surge explicitamente quando um grupo de jovens negros é tratado como bandido apenas por andar no shopping, mas se revela muito mais quando apertamos o celular no bolso ao ver um negro sem camisa embarcar no ônibus. Apesar da herança cultural que faz com que a maioria da população carcerária ou sem-teto seja negra, além da maioria dos jovens mortos pelo crime, não vemos um negro ser morto apenas por sua cor. O preconceito racial encontra outros meios de matar, mas não o faz como crime de ódio. O ódio fica pros viados.

A maior conquista da homofobia é justamente o ódio. Ele é tão grande que faz pais renegarem os próprios filhos e cidadãos apoiarem a exclusão e mesmo o extermínio de outros cidadãos. É tão enorme que impede até que os homossexuais tenham direitos civis, apesar de – eu juro – serem cidadãos que pagam suas contas, votam e até trabalham. É um ódio tão absoluto que nos faz odiar a nós e aos nossos iguais. Vitória do povo de Deus da intolerância!

A recente derrota do PLC 122 e a morte de diversos gays pelo país estão ligadas por esse ódio dentro de nós. Elas só foram possíveis porque dentro do movimento gay, diferentemente do negro, não houve mobilização em defesa de direitos. Não é que tivéssemos que votar num candidato só por ele ser gay não, bastava que fosse um – mesmo que hétero – que nos defendesse. Extremistas religiosos e órfãos da ditadura só votam nos seus e por isso mesmo continuam a ter representatividade, além de um comportamento coerente. Ao que parece, gays odeiam outros gays.

Nem sentimos, mas perdemos para a homofobia cada vez que se torce o nariz para o amiguinho mais efeminado ou para a trans que consideramos vulgar. Quando desistimos de colocar uma roupa X porque “ficou muito gay” ou julgamos que um comportamento tal é exagerado – coisa que nunca se aplica a “agir feito homem” – estamos jogando contra nós. E se nós nos sabotamos, quem poderá nos defender? O Chapolin?

 É ano de eleição, então vale a pena largar o Grindr por um minuto, de repente até se atrasar para a balada e tentar escolher direito os nossos candidatos. Está na hora de nos unirmos. Primeiro entre nós, depois em todas as minorias, pois já que o assunto é “Orgulho”, quem sabe a gente não aprende uma coisinha ou outra com nossos amigos negros?

Atualmente, a carne mais barata do mercado é a de veado…

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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