Walcyr, um beijo pro Félix…


Ele era mau, muito mau, e isso era bom. Nosso grande vilão gay veio com a função importante de seguir os passos da Carminha mostrar que na era do politicamente correto, até mesmo os personagens homossexuais são humanos e possuem falhas de caráter. “Mami” pra cá, “santa ceia” pra lá, ele conquistou o público e nos deu o que parecia impensável: nossa primeira novela gay!

Graças ao talento de Mateus Solano e ao humor que levantou algumas sobrancelhas, ao mesmo tempo em que servia para redimir o personagem, Félix se tornou a grande estrela de Amor à Vida. Agora, quando nos aproximamos do final da trama, a torcida do público é para que ele tenha um final feliz ao lado de Niko, que é – convenhamos – o mocinho da trama. Então, será que o público não está preparado para um beijo entre os dois? Faço desta coluna um apelo, uma carta aberta, pedindo isso. Segue:

À Rede Globo de Televisão e ao autor Walcyr Carrasco,

            Primeiramente, obrigado. Há anos que a representatividade gay em novelas vem crescendo e isso não é pouca coisa. As telenovelas são um dos produtos culturais mais significativos do nosso país, com capacidade real de adentrar nos lares das pessoas e estimular discussões, ao retratar e questionar as agruras do nosso cotidiano.

Na última década, os personagens gays tem sido retratados de forma higienizada, como “bons moços” em relações monogâmicas, com casas estilosamente decoradas e pouca relevância para a trama principal. Isso foi necessário para introduzir o tema, já que o público das novelas é muito maior e mais diverso do que apenas aquele das grandes capitais, onde se espera – erradamente – que essas questões sejam mais aceitas. E então surgiu o Félix.

Como se não bastasse ser o grande vilão da novela, por perseguir a mocinha desde o primeiro capítulo, ele chegou ao cúmulo de atentar contra a vida da sobrinha, um bebê recém-nascido. Seria um caminho sem volta em direção ao fim trágico destinado a todos os vilões, não fosse este tão humano.

Desde o início da trama, a rejeição do pai e a negação da homossexualidade justificaram os caminhos de Félix, abrindo o coração do público para o perdão. Embora seja delicado retratar um gay no papel de vilão, especialmente com o estereótipo da “bicha-má-efeminada”, o humor do personagem e excelência de seu intérprete colocaram a questão em evidência. A homossexualidade não era mais coadjuvante, pois a dor e a delícia de ser gay – da reação da família ao casamento de fachada – estavam no núcleo principal.

E numa novela que mostrou tantos amores e tantas vidas, outro retrato da homossexualidade também chamou a atenção: o casal Niko e Eron. Na saga para ter um filho, eles cresceram em importância na história. Com os mocinhos originais já casados e em paz (pelo menos até o ataque da pistoleira Aline), foi o triângulo entre os personagens e a “fura-olho” Amaryllis que movimentou a trama, ao fazer de Niko um herói improvável e muito querido. E com tanto mau caráter na disputa, o título de grande vilão da novela acabou em aberto, e Félix começou seu “calvário” do hot dog.

Agora nos aproximamos do final da novela e ao que tudo indica, o carneirinho será a redenção final do nosso malvado favorito. A química entre os atores foi ótima e o público está receptivo à ideia, o que é sinal dos tempos. Além disso, mostra uma história real e humana, exibindo uma curva de amadurecimento. Ninguém é 100% bom ou ruim, então é muito mais rico exibir uma saga de mudança do que insistir no maniqueísmo e matar quem não presta e casar quem merece. Sejamos realistas!

E já que essa história toda está mais próxima da realidade, será que Félix e Niko não podem selar sua união com um beijo? Não precisa ser um beijo cinematográfico não, pode ser um beijinho simples, daqueles que a gente dá no companheiro antes de sair apressado pro trabalho, como todo mundo faz. No escopo de toda a valiosa discussão que os personagens promoveram, está longe de ser algo fundamental, mas seria o normal. Casais se beijam, sabia? Inclusive os homossexuais.

A discussão sobre o “beijo gay” é antiga, mas a emissora não perderia nada com o avanço. A hora chegou. Outro casal polêmico da trama, formado pelo advogado Rafael e a autista Linda, já se beijou e ninguém morreu. Aliás, quando a mãe da moça reagiu mal ao acontecido, Rafael foi logo dizendo que “um beijo é uma coisa maravilhosa entre duas pessoas que se gostam” e nunca um “mau exemplo”. Será que só um beijo entre dois homens pode ser considerado ruim? Existem conservadores que virão com a falácia de “propaganda gay”, mas estes já falam isso para qualquer coisa. Além disso, novelas como Insensato Coração abordaram o tema da homofobia de forma bastante contundente. É bizarro que num país como o Brasil seja preferível ver gays apanhando que se beijando. Além do mais, a novela passa tarde e o último capítulo costuma ser longo, o beijinho poderia ficar para o final. Se não for agora, com o Félix e esse burburinho todo, será quando?

Será possível que as nossas crianças, coitadas, que sempre são usadas para justificar a intolerância dos adultos, sejam mais receptivas a chantagem, assassinato, roubo e rejeição familiar, do que a um gesto de amor? Será mesmo que todos se voltariam contra um produto que faz parte da nossa história ou pior ainda, boicotariam a próxima trama, abrindo mão de rever o Leblon do Maneco? Duvido.

Félix já fez muito pela comunidade gay do país e queremos que ele seja feliz, com um relacionamento de verdade, que inclua a expressão mais simples, ao mesmo tempo poderosa, de afetividade. Seria só um beijo, que faria História. Seria um beijo dado em todos os meninos sozinhos, que temem ver o amor paterno se transformar em revolta. Esse beijo não acabaria com a instituição familiar, pelo contrário. seria um beijo capaz de reconciliar pais e filhos, impedindo a inveja e desunião entre irmãos. Seria um beijo contra a intolerância, contra a violência, capaz de literalmente salvar vidas. Seria um beijo de amor e perdão. Seria só um beijo, mas seria lindo. Fundamental.

Um beijo pro Félix.

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