Orgulho Hétero


Ele nasceu. Festa na família! Um varão para honrar as calças – ainda minúsculas – que veste. Ele teria nome? Sim, mas não importa. O mais valioso, ele carrega balançando entre as pernas. É menino. É ele. Quer dizer, Ele, com letra maiúscula de divindade. Só de ser Ele, já é um orgulho.Na escolinha, Ele aprendeu a correr com os outros meninos e defender sua posse da bola, pois era preciso mostrar seu valor. As meninas eram chatas e quem brincava com elas era bichinha. Bicha. Ele aprendeu que essa era a palavra mais horrível que existia no mundo, que era uma espécie de jogo no qual venceria aquele que conseguisse passar das fases sem nunca ouvir esse xingamento. Ele tinha que ser o campeão, com quem nenhuma bichinha seria capaz de concorrer.

Ele podia tudo. Tudo. Levantar as saias das meninas e arrumar briga. Quando o “inimigo” era mais forte, tinha um grupinho para ajudar. Pobre d’Ele se apanhasse na rua e voltasse pra casa chorando. Apanharia de novo pra aprender a ser homem. Educação era tratar o pai de “senhor”. Cuspir no chão, coçar o saco e fazer piada de peido estava liberado. “Frescura” era coisa de menina. De menina e de bichinha, é claro…

Espinhas. Hormônios. Campeonato de punheta. Já tem cabelo no peito? Por que o pau do Pedrinho é maior? Dá uma pegadinha aqui, vai. Eu pego no seu e depois você pega no meu. Só pra treinar, sabe coé? Papai me levou à zona. Tinha que saber logo o que é bom. Puta. Puta que é bom. O melhor é que tem puta em toda parte, basta pedir com jeitinho. Puta de zona cobra, mas o mundo é um verdadeiro buffet de putas grátis.

Na primeira matinê Ele beijou quinze. Uma fez charme dizendo que não queria, mas era pura cena. Foi só Ele e os amigos a imprensarem contra a parede que ela logo beijou os cinco. Puta. Piranha. Teve uma neguinha que reclamou quando Ele puxou o cabelo, mas era mimimi também. Mulher gosta de cara com pegada. Se uma “filhinha de papai” não quiser dar, é só caçar um viadinho – esse era um outro nome pra bicha – pra dar uma aliviada.

Crescer era divertido. Antes Ele gostava de brincar de carrinho e lutinha com a molecada, mas as brincadeiras cresceram também. O carro era de verdade. Da mãe, mas capaz de acelerar rápido e cortar o amigo bundão antes da linha de chegada. As lutas estavam mais perigosas, mas se tem um mané do outro time dando mole, fazer o quê? Era preciso defender a honra da torcida, porra!

A defesa da honra talvez fosse o tema central de sua vida. Foi pela honra de macho que Ele conteve suas lágrimas, abafou gritos e socou quem não merecia. Foi por ela que Ele traiu a namorada, por que macho que é macho não deixa passar mulher oferecida. E quando Ele cobriu de porrada aquele viadinho do Leandro, foi por isso também. O menino não tinha feito nada, mas o simples fato de ter aquele “jeitinho” já era afronta ao sexo masculino.

Ele era o orgulho da família. Era uma pena que agora o mundo estivesse tão chato. Essa droga de “politicamente correto” estava tirando a graça de tudo. O Maca – apelido que Ele tinha dado ao porteiro do prédio, de boa, porque o cara lembrava um macaco – pediu pra ser chamado pelo nome, Ribamar. A Júlia, uma peguete que Ele tinha no trabalho, agora tinha virado feminista. Até cortou o cabelo curtinho e se duvidar, virou sapatão. Diziam que Ele tinha privilégios por ser homem e branco, mas essa era outra forma de preconceito, não? Esses viados estavam impossíveis! Toda hora reclamam de alguma coisa e falam em orgulho, como se fosse bonito dar a bunda!

Ficou tão insuportável que Ele resolveu arregaçar as mangas. Começou com uma página de “Orgulho Hétero” na internet, fazendo piada e denunciando os mandos e desmandos do gayzismo e do femifascismo. Era pra se orgulhar mesmo. Tantos anos de brincadeirinhas furtivas, e tinha conseguido resistir ao impulso de dar o cu. Applause, applause, applause!

Ficou popular. Casou e quando percebeu, já estava no palanque. O poder não era novidade, mas na política a escala era muito maior. Ele defendia os valores tradicionais da família brasileira, como um verdadeiro profeta. Tudo bem que de vez em quando ganhava uns dinheiros misteriosos aí, mas era coisa boba, pra engordar o natal. Era o homem da vez.

Tinha culhões. Fazia os olhos de seus pais brilharem. Era Ele. O orgulho da família. Ele.

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