Opressão ao quadrado


O que acontece quando estruturas estabelecidas de poder e dominação começam a rachar? Se quem é perseguido e violentado se visse subitamente com poder, rolaria uma revanche ou algo mais parecido com vingança? Será que existe opressão ao dominante? Quem inventou os termos “gayzismo” e “femifascismo”?

Não há perseguição ao “Homem-Branco-Heterossexual-Normativo-Cristão”. À medida que os debates avançam, as mulheres bem como os homossexuais conquistam um espaço maior, e a balança de poder social começa a se equilibrar lentamente. Como é natural, isso gera reações extremadas de todos os lados.

Falar em “gayzismo” ou “femifascismo” é de uma crueldade atroz, já que coloca no mesmo patamar dos regimes totalitários aqueles que lutam contra eles. É covardia e “mimimi de playboy” com medo de perder o poder, porque todo homem se beneficia da misoginia, mesmo quando discorda dela. Isso não significa, é claro, que os verdadeiros oprimidos devam oprimir também.

O caso recente de um homem estuprado em Góias chama a atenção para isso. O texto da matéria não deixa dúvidas de que ocorreu uma grande violência, e não há nada utilizado – seja argumentos, seja o fato – para culpabilizar a vítima, mesmo nos comentários. Isso nos mostra como o tratamento é diferente entre homens e mulheres, pois no caso delas é mais comum justificar o injustificável com argumentos moralistas do tipo “tava de saia curta, então procurou”, como ocorreu com todo o slut-shaming no caso da jovem funkeira violentada no Rio. É tudo reflexo do machismo, que deve ser combatido com unhas e dentes, mas será que dá para simplesmente reverter o discurso? Pergunto isso porque o comentário mais comum sobre a notícia, entre os ativistas, tinha o tom revanchista do tipo “agora eles estão sentindo na pele”, como se a vítima merecesse o estupro apenas por ser homem. Isso não é incoerente com a luta pelos direitos humanos?

Processos de reorganização social são sempre demorados e dolorosos. Geralmente, precisamos romper com séculos de doutrinação e “valores” que nos são impostos mesmo no útero, o que não é nada fácil. Então, podemos entender como é tentador se sentir vingado quando vemos o dominante ser dominado. Somos todos humanos e ninguém é perfeito, não há como escapar de certos sentimentos, mas podemos questioná-los e tentar adequá-los aos discursos mais nobres que escolhemos seguir.

O timing é delicado, porque vemos os primeiros avanços dessas questões no Ocidente, mas também um recrudescimento do moralismo, e esses processos fazem os dois lados ficarem mais violentos. Nossa utópica sociedade igualitária talvez virá, mas ainda vai levar alguns séculos para chegar, e por isso que é tão bizarro presenciar essa transformação.

Os movimentos de ativismo feminista e LGBT estão na vanguarda da igualdade, mas é evidente que não são perfeitos. Como já dito, somos todos apenas seres humanos, lutando por uma causa difícil. Existem ativistas que são extremamente contundentes na defesa de seus ideais e algumas correntes filosóficas no movimento que pregam sim, uma resposta mais violenta aos modelos dominantes. Tudo é legítimo e faz parte do processo, mas não há sentido que nos fechemos aos companheiros que desejam contribuir com o debate, ainda que eles possam ser homens, brancos e até “machos”. Eles são privilegiados mesmo, e devem entender isso. Não há como “reverter o discurso” porque nenhuma depreciação é aplicada ao homem, que nunca saberá o que é ser uma mulher (ou “bicha”) negra. Mas a luta não é para abrir a mente das pessoas? A disposição a abrir mão do privilégio e entrar no debate não merece, ao menos, ser considerada?

Apesar de não pagarem o preço na carne, os homens também sofrem com o machismo, que não admite individualidade e afetividade. Ser “homem macho” precisa de uma vigilância constante extremamente cansativa. Um gay teoricamente rompe com parte do seu papel de dominador, mas estão aí os casos de homofobia internalizada e de gays machistas para provar que não é bem assim. Ser o que é não isenta ninguém dessa prisão, pois é o pensamento crítico que o faz. Tem até mulher que reproduz o machismo!

Vale lembrar, também, que há um desequilíbrio no movimento LGBT que faz com que as lésbicas se sintam menos representadas. É necessário que se corrija isso, mas se há homens dispostos a contribuir com o debate, que sejam aceitos. É preciso que eles se acostumem a ouvir, mais do que a falar, mas cabe à militância entender, também, que a dificuldade é parte do processo. Todas as vozes são necessárias, então precisamos nos unir. Quando o oprimido resolve oprimir, nivela-se por baixo. Passa de vítima a algoz e se transforma justamente naquilo que despreza. É uma opressão da opressão. Uma opressão ao quadrado.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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