LULU, qual é a nota?

LULU, qual é a nota?

O-M-G! As mulheres estão utilizando um aplicativo para avaliar os homens como se eles fossem objetos sexuais passíveis de cotação… Por hashtags! É o fim do mundo! Elas pensam que são o quê? Homens também tem coração, viu? Nós jamais trataríamos os outros como mercadoria, comentando com os amigos quem chupa bem e… Oh, wait!

O assunto da semana é o Lulu, o aplicativo que “traz o banheiro feminino para os smartphones” e que está dividindo opiniões e deixando alguns homens bastante incomodados. Como assim, mulheres darão nota para amigos e parentes? Pior, homem não entra nesse “clube”, então não há como controlar o que está sendo dito. E se aquela ex vingativa jogar #PintoPequeno só de raiva? De fato, é um problemão! Mas fica a pergunta: quedê a versão gay?

Bem, a dificuldade é conseguir separar quem é gay ou não, já que homossexualidade não é gênero. No Lulu, somente perfis definidos como “feminino” podem instalar o App para então criar perfis masculinos para avaliação, que utiliza os contatos do Facebook. Para uma versão gay – GluGlu? CuCu? Só Koo? Tantas questões! – talvez bastasse anunciar o objetivo, já que homens “normais” jamais mexeriam em “coisa de viado”. Bem, nunca se sabe, né? De repente, limitarão o download apenas para aqueles que tiverem curtido o combo MadonnaBritneyGaga. O fato é que it’s coming e não deve demorar…

existe uma versão masculina vindo por aí, levantando logicamente a questão do machismo, já que as mulheres já são avaliadas o tempo todo. Os desenvolvedores – entre eles, uma menina – se defendem ao dizer que hoje tudo é julgado pelo politicamente correto e que, logicamente, para algumas pessoas será apenas uma diversão. E essa é a chave de todo o rebuliço…

Atualmente, para que alguma coisa faça sucesso, é preciso que se reproduza o climinha competitivo da sexta série nas redes sociais. Passar daquela fase difícil do Candy Crush é uma delícia – ainda mais com todo aquele maldito chocolate – mas nada se compara à alegria de esfregar isso na cara dos coleguinhas que ainda estão no início do jogo. Isso faz parte do personagem que montamos em nossos perfis, conforme vamos compartilhando fotos de viagens e livros para fazer inveja e mostrar nossa cultura, aquele músculo flexionado para ganhar uns cutuques e as frases de efeito que mostram nossas opiniões extremamente importantes.

Com a nossa vida sexual é a mesma coisa. Se pudermos, vamos partilhar com os amigos os detalhes mais invejáveis para construir um “figurão pegador”. O “pecado” do Lulu é nos roubar esse privilégio. Todo mundo quer se divertir, mas não há nada de engraçado em ver certos medos e verdades expostos sem sua permissão. Se o aplicativo só permitisse elogios, com certeza a revolta masculina não existiria. O problema é que é sincero e pior ainda, sacana. Nada impede que alguma calúnia destrua anos e anos de investimento, e a maioria dos homens simplesmente não está preparada para lidar com esse tipo de insegurança. Há até um “Lulufake” para garantir a reputação de #TrêsPernas, #BomDeCama e #Romântico, porque “tendo a fama é muito mais fácil”! Como pimenta nos olhos dos outros é refresco, recomendo uma visita à fanpage, para apreciação dos lindos memes machistas e até transfóbicos de lá.

LuluFake

É evidente que o Lulu levanta questões, pois fala da nossa necessidade estúpida de categorizar as pessoas, de meritocracia e de liberdades sexuais. Ele também é machista ao apelar para o orgulho masculino com a mensagem de “nós oferecemos milhões de garotas para olhar pra você, falar de você, pensar em você… e você prefere estar em outro lugar”, sempre que recebe um pedido de saída do aplicativo. Só falta incluir um “sua bicha” pra fechar tudo com chave de ouro… Entretanto, a questão mais importante é a nossa babaquice mesmo.

Relacionar-se com alguém, mesmo que apenas para uma rapidinha na balada, é sempre uma experiência única. É claro que algumas pessoas são mais experientes ou mais altas ou mais bem dotadas, mas isso só fará sucesso com quem curtir essas coisas. O que é mérito para uns, pode ser defeito para outros. Existem dias em que você está apenas cansado e outros em que está morrendo de tesão em todo mundo. Somos pessoas. Não há receita. Podemos temer as opiniões no Lulu ou achá-las super legais, mas nenhuma resenha conseguirá prever a química – ou falta de – na nossa próxima transa. Relaxem.

E claro, a suposta versão gay não será nenhuma maravilha da elegância. Digamos que a homossexualidade nos faz mais arrojados no campo sexual e que isso até deveria servir para um comportamento mais sofisticado… Mas fomos arruinados pela vaidade! Sou capaz de apostar que as hashtags mais populares serão do tipo #PassivaUó, #Maricona, #MenteQueÉAtivo, #Colocada, #Necão… Enfim, tudo que mostrar nossa normatividade machista. E logicamente que a resposta padrão para qualquer ofensa será apenas #Recalque.

Dá pra avaliar gente que pensa assim?

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página!

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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