ARTPORN


Tem gente que fica pelada, imita estátuas gregas, simula sexo ou enfia santo no rabo. Agora, há até quem perca a virgindade durante a performance. É tudo arte. É tudo para provocar e fazer pensar. Será que funciona? E se alguém filmasse e colocasse na internet, estaria expondo a obra ou produzindo pornografia? Parece que só é pornô, se excitar…

Em 25 de Janeiro de 2014, o estudante de arte Clayton Pettet será deflorado numa galeria cheia de espectadores. A perfomance “Art School Stole My Virginity” (A Escola de Arte Roubou Minha Virgindade) pretende estimular o debate sobre o valor que damos à virgindade e, logicamente, a performance só acontecerá uma vez.

Como não seria diferente, muitos criticam o rapaz pela ousadia, pois consideram essa ideia de “transformar o mundo com o próprio corpo” no mínimo narcisista. Ainda há algum “debate” sobre virgindade rolando nos meios acadêmicos? Estaria ele redescobrindo a sexualidade e a rebeldia? Seria o ato uma redefinição da moral? É conceitual? Ninguém fez isso antes? Quem ele pensa que é?!

É óbvio que essa ideia de “sou foda” é uma das marcas de nossa geração egocêntrica. Além disso, a reprodução de clichês sempre pode ser vista como uma “releitura”. Mas será que a vontade de transformar um ato em obra não faz, de fato, com que o olhar sobre ele seja diferente? É tudo muito #ARTPOP mais #ArtForFreedom, e Deus sabe como o sexo tem sido usado para vender qualquer coisa nos últimos setent… mil anos, mas sempre que ele está em foco as reações são extremas. O que há de tão abominável na expressão da sexualidade?

A nudez sempre foi tema da arte. A arte mobiliza as pessoas e sem dúvida que o erotismo também, então há uma linha tênue entre o artístico e o pornográfico, que depende do vocabulário estético de cada um. Nós somos gerados pelo sexo e a sexualidade define grande parte da nossa personalidade, sendo, dessa forma, natural que ele seja assunto recorrente na expressão artística e na publicidade.

Há até museus do sexo espalhados pelo mundo, com obras que colocam o amor e a libido sob o prisma de nossas emoções. Há lugar para produções pornográficas também, e parece que basta essa mudança de cenário para transformar o que foi feito apenas para punheta em “estímulo para a alma”.

O David de Michelangelo é inegavelmente uma obra de arte, assim como O Êxtase de Santa Teresa, mas ninguém pode controlar o tipo de reação que provocam. Se um admirador se detém nos detalhes marcados daquele gigantesco homem de mármore, descendo dos mamilos à barriga tensionada e indo até a linha de Adônis que encaminha à genitália, ou tenta imaginar o som que sairia dos lábios abertos da santa emocionada, pode acabar tendo uma ereção.

As obras perderiam o valor por causa disso? O admirador estaria desrespeitando-as? Será que os artistas não desejavam esse efeito? E sem ele, será que essas obras seriam tão famosas até hoje?

Parece que quando o assunto é sexualidade, só há valor no que é escondido. Uma escultura pode ser potencialmente erótica, mas se for assumida como tal desde o princípio, é considerada pornográfica e, portanto, indigna. Falar abertamente de sexo causa revolta. Dizem logo que tudo é sujo, que é impróprio ou é falta de vergonha.

É por isso que o movimento gay não é respeitado. Por tratar de uma liberdade sexual, ele parece tratar de uma liberdade menor, que não tem direito de ser verdadeiramente livre. Ser gay é até tolerado, mas “fazer alarde disso” através do comportamento é indecente, é vexatório. A parada pode acontecer e ser até política, mas perde o valor porque tem gente que só vai lá fazer pegação. Um casal de namorados é lindo, mas se o relacionamento é aberto passa a ser considerado putaria. E essas não são opiniões de “velhos conservadores”, são coisas propagadas todos os dias por jovens assumidamente gays e culturalmente privilegiados. Quando foi que ficamos tão chatos? Será possível que a mamãe brigando para você não brincar com o seu pipi foi mesmo tão traumático?

De repente alguém vai olhar a tal performance da virgindade e gozar gostoso. Que mal tem isso? Está na hora de reconhecermos que o nosso sexo é – surpresa – nosso. Ninguém pode apontar e dizer que é sujo ou que não pertence ao modelo social ideal, pois isso não existe. Quando dermos tal passo, estaremos transformando o mundo. Estaremos gerando uma revolução a cada esporrada, e isso será belo. Será uma obra-prima.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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