Minha diva, minha vida!


O culto ao feminino parece fazer parte da identidade gay. Seja através da música, de nossos ídolos ou visão de mundo, a figura da Diva é quase tão importante quanto o sexo! No caso das drags, existem até mesmo gays que se vestem como mulheres, e não podemos esquecer também da “Diva Wars” que transforma os fãs em torcidas organizadas…

DandoPintaSloganHá diversas figuras femininas que admiro, mas uma tem lugar especial na minha vida e na de muitos homossexuais. Para milhares de meninos, ela foi a primeira diva, e também a primeira estrela inalcançável. Não era tudo que queríamos ser – sorry, publicitários, não era – mas sem dúvida, um grande objeto de desejo. Estou falando da Barbie.

É uma pena que nossa sociedade normativa estipule que “carrinho é de menino” e “boneca é de menina”, já que as crianças precisam de um tempo para absorver essas bobagens e em alguns casos existe o interesse pelo “proibido”. Como se sabe, tudo que “não pode” é mais atraente. Assim, se um menino se interessa por bonecas, talvez tenhamos um dos primeiros sinais de uma pequena estrela infância gay.

Esse “talvez” é importante porque evidentemente nem todo menino gay quis brincar de boneca, mas muitos, sim. Há também o caso de menininhos que brincavam com as Barbies da irmã e hoje preferem louras peitudas de carne osso, mas para os gays, o drama da boneca impossível marcou vidas como o primeiro sinal de que havia algo de… Diferente. Foi o meu caso.

Eu passava horas e horas impedindo que o Castelo de Grayskull caísse nas mãos do Esqueleto – e era bem feliz com isso, aliás – mas também queria uma Barbie, porque tinha visto na televisão e as meninas da escola tinham. Nessa época, minha mãe era uma espécie de “fada dos brinquedos”, pois bastava pedir algum para ela, que cedo ou tarde ele se materializava na minha frente. Mas aí, abri a boca para pedir uma Barbie roqueira e foi o fim do mito: a fada virou bruxa e não importando o quanto eu implorasse, não podia ter uma boneca. No natal, minha cartinha só serviu para revelar que Papai Noel era a minha mãe também, e portanto, passar de ano não me garantiria o que pedi.

No auge do desespero, pedi ao menos o CARRO da Barbie. Nessa época eu brincava com as FOTOS dela, recortadas dos jornais. Aceitaria qualquer coisa, mas nem o carro pude ter. Doeu, mas é claro que esta é apenas a minha versão da história. Hoje entendo o lado da minha mãe e imagino como devia ser aflitivo para ela negar alguma coisa a alguém tão querido, ao mesmo tempo em que se preocupava com os indícios de algo que, para a criação dela, era um problema. Mas na época eu só queria saber da minha Barbie!

Linha do tempo da Barbie. Adivinha quem tem todas?
Linha do tempo da Barbie. Adivinha quem tem todas?

Lançada pela Mattel em 09 de Março de 1959, ela tinha a missão de estimular os sonhos das meninas do pós-guerra. O modelo da dona de casa dos anos 50 estava ficando pra trás, e logo viriam as lutas sociais dos anos 60 e 70, então qualquer menina que não quisesse brincar de mamãe-e-seu-bebê-plástico poderia vislumbrar o futuro através da Barbie, com seu corpo de modelo e tantas carreiras possíveis. O sucesso foi tanto que o nome ficou conhecido, marcado para sempre na cultura pop. Basta dizê-lo e todos sabem quem é. Ela redefiniu sua própria categoria, já que ao falar em “boneca” pensamos primeiro nela também. E todos a tratam assim, quase como se fosse uma pessoa.

Uma PARTE da minha coleção. Um dia, morro soterrado.
Uma PARTE da minha coleção. Um dia, morro soterrado.

Eu tinha 10 anos de idade quando minha mãe finalmente cedeu. Entrei na adolescência indo à forra, e logo a Barbie ganhou carro, casa e (muitas) amigas. Um dia, comprei uma boneca de colecionador, porque achei bonita. Nunca me esquecerei da sensação que tive ao ler essa palavra… Foi um estalo! Eu percebi ali que se existia algo que tinha nascido para fazer, era colecionar Barbie, a única coisa que eu sempre queria mais, mais e mais. O resto é história.

Tornei-me um colecionador sério, de comprar coisas limitadas em leilão e dar palestra. Até a primeira Barbie, aquela de 1959, tenho aqui. Fiz amigos, tatuagem, e uso as coisas da diva com orgulho.

Loucura? Exagero? Pode ser. Para alguns, certamente é. Mas o caso é que ela faz parte da minha identidade. A Barbie foi a primeira a apontar minha diferença, mas foi a única a fazê-lo sorrindo. Ao denunciar que eu podia ser gay, ela me ajudou a lançar meu olhar para a questão e perceber como o mundo trata quem foge do padrão. No fim das contas, foi esse olhar que me fez chegar num acordo comigo, lutar pela minha felicidade e até criar esse projeto, que é minha contribuição para um mundo mais tolerante. É por isso que dentre todas as divas da minha vida, a maior e mais importante delas tem apenas 29 centímetros…

E se você leu até aqui, de repente ela tem um lugar na sua história também.

P.S: Ainda AMO – e coleciono – He-Man!

Eu e a Barbie nº 01, de 1959.
Eu e a Barbie nº 01, de 1959.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso!

Leia Dando Pinta toda quarta, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

Previous Os 10 mandamentos do rei das bee!
Next ARTPORN

7 Comments

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *