Quem tem medo do Black Bloc?


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Em junho deste ano uma onda de protestos e manifestações populares eclodiu no país, declarando uma insatisfação coletiva com decisões políticas mais recentes e outras nem tanto. Apesar do Gigante Coxinha ter participado e iniciado levantes próprios a mídia permanece focada nos atos vandalistas e nas ações do movimento Black Bloc. Mesmo muito tempo depois de tais ações perderem a aura de novidade espetacular do início. Mas o que mais espanta nessa “limitação” jornalística é o zelo com a propriedade privada dos bancos depredados e com o distúrbio da rotina das cidades.

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Não é difícil identificar a importância que a individualidade e a privacidade tem na nossa cultura “neoliberal” contemporânea. Qualquer discurso que remeta a “possível” coesão do coletivo é facilmente corroído pela pluralidade típica de qualquer sociedade e dos antagonismos existentes entre alguma delas.

No entanto, quando uma parcela da população se indigna a ponto de ir a rua protestar, a mídia parece fazer questão de demarcar a especificidade daquele protesto ou manifestação. Um levante de professores contra suas condições de trabalho parece caber somente a eles, não se estendendo aos alunos e pais, que formam uma malha maior da sociedade beneficiada com qualquer tentativa de melhorar o Ensino Público no país ou região. Então, para evitar uma adesão maior da população, não se explora nos noticiários, dirigidos a massa, as reais condições de trabalho, mas sim os paliativos que o governo promove como melhorias significativas e o prejuízo de pais preocupados e crianças ociosas. Afinal “todo mundo sabe que professor ganha mal mesmo” e “ninguém é culpado pela má escolha profissional deles”.

Porém, quando um banco ou loja são depredados todos parecem sentir no bolso na alma a perda ou prejuízo alheio. Mais até do que quando se descobre que um manifestante ou vândalo foi massacrado pela ofensiva policial. Até porque “ele foi protestar ciente das consequências”. Agora a dúvida, se a polícia está lá pra zelar pela ordem, como explicar a utilização de táticas que só promovem o caos?

Hobbes coloca o medo que o outro representa como o legitimador do poder que emprestamos ao Estado. E agora, em tempos de “paz”, o medo que a humanidade tinha pela própria vida se estendeu aos seus pertences mais estimados. Algo mais que natural para a experiência humana. Imagino que até autistas devam ter objetivos de valor afetivo. Mas quando uma instituição privada cujo único objetivo é o lucro como bancos ou empresas de ônibus tem seus bens depredados a mídia dá o mesmo foco que a decapitação de um rei poderia ter, quando qualquer um que paga juros no cartão de crédito sabe que o prejuízo deles em nada se compara com a extorsão que esses juros representam, assim como as dificuldades que a população enfrenta pra se locomover nas grandes cidades, a preços nada modestos.

Então, se as manifestações servem para protestar contra o estado atual das coisas, nada mais normal que a ordem estabelecida seja questionada. E não precisa ser Freud para entender a razão de algumas pessoas decidirem descontar a sua raiva e frustração nas “ferramentas” desse lucro que sobrepõe a qualidade de suas próprias vidas. Logo, o que deveria ser repudiado é a tentativa de anular o conteúdo de tais reivindicações e a maneira covarde com que o Estado – agente da ordem que oprime – tenta dispersar a parte da população que exige mudanças. Sob o pretexto ou maneira que for. Não é porque o problema não afeta a todos que um reclamante não merece ser ouvido pelo governo que existe para garantir uma existência, no mínimo, digna.

Não digo que me incluo no idealismo e que agiria da mesma maneira que os integrantes do Black Bloc, até porque não sou uma pessoa agressiva. Prefiro os embates verbais. Mas em nada discordo da postura deles, ainda mais quando muitos estão lá exatamente para exercer o papel que caberia aos policiais que eles enfrentam: o de proteger a população da violência do próprio Estado.

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