T.G.I.F – Bicha Graças a Deus!


Noite de sábado. Sinto um empurrão na balada e logo penso que é mais um dançarino espaçoso. Viro, são três. Dois estão segurando uma garota tão bêbada que sequer se aguenta em pé, enquanto o terceiro se nega a beijá-la. Sim, eles  a ofereciam como se fosse uma coisa, e queriam que o amigo se aproveitasse do estado dela. Ele negou, deu um passo pra trás, e foi aí que esbarrou em mim. Esses dois largaram a menina quase que caída na pista, já que não acharam utilidade para ela. Dei graças…

DandoPintaSloganAgradeci a Deus – embora sequer acredite n’Ele. Mesmo com os bombadões torcendo a cara para os gordinhos ou com todos se intitulando “machos-que-não-curtem-pintosa” no chat, nunca fui protagonista de uma cena dessas. Nesse caso me coloco no lugar da menina e penso em como deve ser horrível ser tratado dessa forma, mas agradeço também por não ser capaz de agir como aqueles homens.

Ser gay não é mérito e ser hétero também não é defeito, mas a “cultura do macho” que vitimiza as mulheres e persegue os homossexuais cobra um preço alto dos que transforma em “deuses”. Há um roteiro a seguir, que pede que o cara seja “pegador” e que seus braços sejam maiores que as coxas. Se sair da linha, é “viadinho”.

Gays reproduzem isso em sua subcultura, inclusive com a efeminofobia que coloca a “bichinha” à margem e as lésbicas fora de campo, até mesmo no debate político. É uma vergonha, já que a homossexualidade nos dá a oportunidade de não sermos conformistas. Ao agir dessa forma, conformada, só beneficiamos o sistema que nos oprime. Ninguém se engana com a reprodução vazia de normas antigas, ou mesmo com o “sonho dourado” da assimilação, que fica sempre na posição de isca e nunca na de recompensa.

Mas ainda assim, preciso agradecer. Agradecer por ser gay. Ensinaram-me que era errado, que ia decepcionar minha mãe, que o próprio Deus condenava e que morreria de AIDS. Falaram que eu seria uma vergonha para o meu sexo e que ririam de mim como fazem com os personagens do Zorra Total. Disseram que carrinho é melhor que boneca e que é lógico que eu não seria bom em esportes, já que gays são como as meninas e, portanto inferiores. Afirmaram que eu nunca seria pai ou marido, pois os gays não constituem família. Tudo bobagem. Tudo uó. Mas é melhor que ser hétero, veja só!

Se eu fosse hétero não poderia beijar meus amigos. As meninas ganhariam duas bitocas e os homens, só um aperto de mão. Não poderia chorar em público porque tudo é bobagem, pois homem que é homem tem que enfrentar a vida com coragem. Todo cuidado seria pouco no vestiário porque não ia querer que os caras achassem que estou “manjando rola”, e deusmelivre esquecer do placar do último jogo do, sei lá, Quinze de Inhaúma, pois Flamengo é muito mainstream!

Se eu fosse hétero, colocaria minha camisa Pólo de Playboy e iria à caça, “chegando junto nas gatinha”, que timidez é coisa de otário. Se pá, até cultivaria uma barriguinha de chope, que mulher gosta é de dinheiro mesmo, e não ia querer nem que chegassem perto com esse papo de “metrossexual”.

Sendo hétero, procuraria uma “mulher direita” pra casar – mas nunca me amarrar – que fosse preferencialmente cabaç.. virgem! Claro, enquanto isso me divertiria com essas da rua ou passaria a mão numa coleguinha do trabalho. De repente, até filmaria alguma pagando boquete pra mostrar pros amigos no WhatsApp e rir da cara dela. Pediu, né?

Aliás, a bêbada da balada também estava pedindo, então se eu fosse hétero, como aqueles caras, talvez fizesse o mesmo: pegaria uma completa desconhecida, tão chapada que nem abria os olhos, e ao invés de tentar ao menos jogar uma água em seu rosto ou coisa do tipo, a empurraria pro meu amigo bundão que não tava pegando ninguém. No mínimo valeria a zoeira, já que ele nem quis pegar, o “vacilão”. Além de fácil, ela era até gostosinha.

Ser viado, gordo, preto ou mulher são coisas bem difíceis. Tem gente que é até tudo isso junto. Uma das piores facetas dessa filosofia repressora é aquela faz com que duvidemos de nossas capacidades e, muitas vezes, rejeitemos o que vemos no espelho ou no próximo. Mas ser “macho hétero” também deve ser MUITO difícil, porque alguém que se considere humano só pode ter VERGONHA de fazer certas coisas… E numa hora dessas, só consigo repaginar o “T.G.I.F” para “Thank God I’m Fag” ou, em bom português, “Graças a Deus sou bicha”!

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

Previous No cinema com Bruce LaBruce
Next O ataque dos clones!

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *