Mostre os peitos ou se assuma de vez!

Mostre os peitos ou se assuma de vez!

Pilar de finesse, Valdirene do frango Val Marchiori declarou que “bichas descamisadas” são bregas, “tudo passiva” e que o melhor é só usá-las e depois casar com as que vestem Armani. O tom era piadista, é claro, mas lembra aqueles conselhos moralizantes de revista feminina, não?

Mas a melhor parte é que existem bichas batendo palma e ainda repassando o conselho prazamiga! Será possível que ninguém prestou atenção na máxima da Marie Claire? Chique é ser inteligente!

Atualmente todos querem dar sua opinião, ao mesmo tempo em que exigem que ela seja respeitada. Na internet então, é uma verdadeira praga! A pessoa fala qualquer coisa e coloca um “minha opinião” como se isso significasse que ela é absoluta. Esse será o tema de uma coluna futura e é “apenas a minha opinião”, mas o caso é que a maioria de nós não tem respaldo para sair falando qualquer coisa por aí.

No caso de uma “celebridade” como a Val, um líder religioso ou um político, a coisa é ainda mais grave porque a repercussão é maior, só que “liberdade de expressão” não deve ser confundida com “permissão para falar merda”! Ah, vocês podem perguntar quem sou eu para dizer que a afirmação da ricaça é idiota… Eu sou um homem gay. Dessa forma, faço parte da cultura que ela abraça – à medida que a bajulação de seus fãs permite – sem entender. O que ela diz é um achismo bobo, pode até ter servido para uma risada. O que não faz sentido é que outros homens gays o transformem em arma.

Sim, existem pessoas que dançam sem camisa na boate, reforçando o estereótipo de que os gays são promíscuos e centrados em estética. E daí? Vocês podem negar o quanto quiserem, mas o erotismo e o corpo masculino como objeto são partes da nossa cultura. No fim das contas, Cher à parte, o que nos une de verdade é a prática da homossexualidade. É o ato sexual em si. É óbvio que ele pode envolver afeto, mas isso não é regra e nem o faz melhor. Se uma pessoa tem interesse sexual por alguém do mesmo sexo, temos o básico. Todas as festas, divas e firulas, e até os estudos sobre, são consequência.

Parece que hoje os gays tem vergonha disso. Do seu grupo, da sua subcultura, da sua comunidade, como se o rótulo fosse a coisa mais danosa do mundo. Fugimos das palavras “rótulo” e “estereótipo” tal qual o diabo da cruz. Para quê? Para sermos aceitos? Para nos sentirmos “normais”? Engraçado, ninguém fica preocupado ao ser rotulado como católico, flamenguista, nerd, hipster ou físico nuclear. Não estamos, socialmente, entrando e saindo de pequenos grupos e definições sempre? Assumam-se de vez! Você pode não ser uma “Barbie descamisada” mas talvez seja um “urso”, uma “pintosa” ou um “discreto”. Talvez odeie tudo isso, mas sempre terá alguém para te colocar numa dessas caixinhas e se não for dentro do “execrável mundo gay”, será fora dele, onde somos todos VIADOS e não se fala mais nisso!

O amiguinho tirou a camisa do seu lado e você se incomodou com isso. Será recalque porque não está podendo fazer igual? Malhado desse jeito, o cérebro e o pau devem ser minúsculos! E você, saradão, fica pra morrer quando uma bicha gorda e preguiçosa – sim, porque se você consegue fazer mil abdominais por dia, todo mundo consegue – acha que pode sair por aí exibindo as pelancas? E quando elas acham que são mais inteligentes só porque não cuidam do corpo, mas terminam sempre sem pegar ninguém interessante? O que dizer então de você, ativão macho-alfa, que é obrigado a olhar para essas passivas loucas que não sabem que pra ser gay não é preciso agir feito mulher?!

Pessoal, estamos todos no mesmo barco. Gordos, magros, altos, baixos… somos faces da mesma moeda. Somos seres humanos unidos por uma particularidade e, especialmente, pela forma como o meio social lida com ela. Somos todos viados, não importando os demais adjetivos usados para “decorar” isso. Enquanto não aceitarmos nossa diversidade, mesmo com putos, vadios, promíscuos e descamisados, não podemos exigir o respeito que nos é de direito. A lição é velha, mas é pertinente: ele começa em casa. Não é algo a conquistar.

Escandalizar-se porque alguém tira a camisa na boate ou é mais atirado sexualmente que você, é moralismo. Acreditar que essas pessoas são “fáceis” e que isso significa que valem menos, também. Tratar a liberdade sexual como inimiga é um retrocesso e uma vertente sádica do machismo, que ainda por cima coloca “as passivas” como gentalha. Que a Val Marchiori pense dessa forma, tudo bem, ela é só uma “convidada especial” nessa vivência. Mas você, gay, que é protagonista, deve fazer como as corajosas da Marcha das Vadias e colocar o peito pra fora, nem que seja metaforicamente.

Tire a camisa do preconceito, das picuinhas, da homofobia internalizada, do machismo, da autoestima baixa, da pobreza de espírito. Essas coisas, sim, são bregas. Ou então, sei lá, pelo menos se assuma um babaca de vez!

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

Avatar
Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

Ver todos os posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *