Promíscuo com muito prazer!


Era uma vez um garoto que não era mais virgem. Ninguém sabia, porque tal transa tinha sido com um cara, mas na época a maior preocupação do rapaz era passar em matemática e tentar não perder tanto tempo pensando em homem. Foi quando a escola lhe proporcionou uma revelação: o que ele mais queria na vida era ser promíscuo!

Tudo culpa de uma campanha para doação de sangue. As regras do Ministério da Saúde falavam que pessoas promíscuas não poderiam ser doadoras, e que alguém era assim considerado se tivesse tido mais de três parceiros sexuais por ano. Três. T-R-Ê-S. Três. Por. Ano!!

Eu tinha 17 anos nessa época, e obviamente que tudo que mais desejava na vida era ter mais de três parceiros sexuais por ano, até mesmo por dia! Então eu fiquei chocado em saber que se a minha futura vida sexual fosse do jeito que imaginava, seria considerado promíscuo. Ora, essa não é uma palavra feia, que significa algo que eu não deveria aspirar ser? É a mesma coisa que falavam de “gay”. Estava pronta uma nova batalha entre minha moral construída e meus desejos. Ainda bem que nesses embates os prazeres sempre saíram vencedores…

O Ministério pode ficar com suas regras e definições, pois é direito dele e não vem ao caso. Hoje, o que me surpreende é ver gays que usam parâmetros que são, vá lá, técnicos, para julgar a conduta alheia! Parece-me muito óbvio que as implicações de um decreto ou orientação oficial não sejam necessariamente aplicáveis às pessoas, mesmo no caso da Saúde. Um bom exemplo disso é o uso de preservativos, já que qualquer pessoa é livre para escolher dispensá-los – embora um órgão oficial jamais possa cogitar tal possibilidade. Então, não seria o mesmo caso quanto ao “número certo” de parceiros?

Ninguém veio ao mundo para patrulhar o sexo dos outros e até onde eu saiba, essa era uma das mais básicas reivindicações da causa gay. Por que, então, estamos agindo da maneira que devemos combater? Sim, porque ser homossexual ainda põe em cheque o padrão e se assumir gay sempre tem algum peso político, mesmo que involuntário. Não é estranho, então, que gente que se diz bem resolvida defenda discursos moralizantes? Com certeza dá para entender que é parte da necessidade de aceitação e uma tentativa de proteger conceitos absorvidos muito cedo ou que o comportamento se justifica na filosofia assimilacionista, que cria até gays homofóbicos, mas é uma incoerência. Não “combina” com ser fabuloso gay.

Não existe um modelo para a homossexualidade porque ela é apenas uma característica, como a cor dos olhos ou o tamanho do pé. O que existe é um “papel social” do homossexual, que se definiu pela aceitação e rejeição de traços comuns a diversos gays, formando estereótipos, que é outra palavra feia. As pessoas tratam a promiscuidade como se fosse a coisa mais indesejável do mundo, mas é só uma palavrinha boba.

Estereótipos existem por algum motivo e rejeitá-los é só mais uma forma de exclusão. Há um conceito de “gay” que inclui a “promiscuidade”, e nesse encontro de filosofias fica óbvio o porquê de tantos homossexuais fugirem das duas palavras. Além de viado, ninguém quer ser promíscuo. Isso reforçaria o estereótipo. Acontece que ninguém parece incomodado em reforçar a ideia de que somos brancos, bonitos, limpinhos, educados, estilosos e malhados, né? Ah, mas isso pode. Não são coisas abomináveis como a promiscuidade, que só comprova como somos desviados do que é ser “de bem”.

Senta que lá vem a bomba: promíscuo é quem faz mais sexo do que você! Para os conservadores, não se é mais ou menos viado por transar com um ou com cem. Você continua em pecado. Além do mais, monogamia e casamento não foram inventados pela Apple para trazer status, só dão certo quando são escolhas conscientes e desejadas, livres de pressões sociais.

A coisa mais fabulosa que podemos fazer é assumir nossas escolhas de cabeça erguida, sem vergonha ou hipocrisia. Quer arrumar um namorado e ficar só com ele, no maior romantismo e sem nunca pular a cerca? Ótimo, seja muito feliz. Agora se o que você quer é passar o rodo em geral, porque a vida é curta e há muita gente no mundo pra conhecer, ótimo também! Nenhum é mais bonito do que o outro só porque de repente a tia da padaria pensa assim.

Concluindo a historinha, o menino cresceu e, como seu coração é puro e seus desejos são nobres, realizou o sonho adolescente: foi muuuuuuuuuuuuito promíscuo. Acreditam que ele até conseguiu amar e ser amado, assim como manter relações monogâmicas entre uma pegação e outra? Continuou dando ouvidos aos seus desejos, sem se sentir um criminoso por isso, e o quê ganhou? Muito prazer! Não é gozado?

Pemita-se. Seja livre. Seja fabuloso sem dar satisfações a ninguém!

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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