A hora de dar tchau…


Nascer, crescer, morrer. Começo, meio e fim. Adaptações e elenco coadjuvante à parte, todos nós seguimos esse roteiro na vida, do útero à cova. Ninguém pede para nascer, mas a vida muitas vezes nos faz pedir para morrer, o que parece a mais absurda das ideias na nossa sociedade obcecada por demonstrações de felicidade. Qual o papel, então, daqueles que ousam sair de cena e decidem quando e como partir?

Eu, particularmente, considero religião uma coisa ridícula absurda. Mas vá lá, se há alguma coisa de bom nela, é o conforto que oferece a algumas pessoas, sendo, muitas vezes tudo que as impede de cometer suicídio. Vem da religião, também, a noção de que o Criador nos presenteou com o livre arbítrio, que deveria significar liberdade para escolher qualquer coisa, mas não funciona exatamente dessa maneira. Somos livres para fazermos o que der vontade, mas dentro do “tribunal social” isso nunca é bem visto. As reações apavoradas das pessoas ante um suicídio são exemplo disso.

Dizem que nosso instinto de sobrevivência é uma das coisas mais fortes do “animal humano”. Todo mundo quer salvar a própria pele, e nos últimos dois ou três séculos a noção de personalidade e a importância do “eu” fez com que ficasse ainda mais impensável que um ser humano – tão único e especial – resolvesse tirar a própria vida. Mas acontece, e talvez seja a hora dos vivos respeitarem isso.

Cada caso é um caso, e não vou usar um post de blog para fazer campanha pelo suicídio. Também não se preocupem, que não penso em me matar. Só acho que em alguns casos, precisamos dar crédito à inteligência das pessoas e entender que dar fim a própria vida pode ser uma decisão tão válida quanto ter um filho ou cortar o cabelo. Evidentemente que, sendo algo definitivo, requer certeza, mas e se alguém já tiver pensado em tudo e quiser fazer isso? Que direito temos de recriminar ou de partir para o julgamento fácil de que a pessoa tinha problemas psicológicos ou emocionais? Será possível que, em pleno 2013, com tantos avanços e tanta gente no mundo, nós não consigamos admitir a possibilidade de alguém não querer mais fazer parte disso? A vida é mesmo tão sagrada assim? E se é, ela não é também uma dádiva e propriedade de cada um, para dispor como preferir?

Quero comentar alguns casos. O primeiro é o da atriz Leila Lopes, que em sua carta de despedida disse que estava cansada disso tudo, que tinha certeza que Deus a perdoaria e que sentia saudades da mãe. É claro que a opinião pública partiu logo para a conclusão de que ela era uma fracassada, frustrada por ter saído da Globo e terminado fazendo filme pornô. Pode ser sim. Com o tipo de cobrança que existe sobre sucesso e fama, talvez ela simplesmente não tenha suportado a pressão. Mas isso não significa que o que estava escrito na carta não seja lúcido. Basicamente, ela resolveu que não queria mais viver e resolveu isso.

O mesmo aconteceu em Maio, com um dos editores da Folha de São Paulo. A carta não detalhou os motivos, mas segundo amigos ele dizia que se chegasse aos 35 anos sem um amor e posição profissional desejada, se mataria. A história faz soar um alarme sobre os valores sociais, pois temos o caso de alguém que desistiu de viver por não conseguir certas coisas até um determinado tempo… Mas é direito dele também. Talvez ele viesse a conseguir essas coisas dali a cinco, dez ou vinte anos, mas tinha estipulado um prazo e foi fiel a isso. Essa praticidade também ocorre no caso de um jornalista esportivo americano, que se matou no aniversário de 60 anos por considerar que essa era a última idade digna, e que era melhor morrer no auge do que definhar. Ele disse tudo sobre sua decisão num blog com mais de 70 posts secretos, que só foi liberado como uma “megacarta” no dia do suicídio, e frisou que estava muito bem financeiramente, com amigos e família em ordem, e que só não queria viver além daquele ponto.

Um caso recente foi o da transexual Tiffany, que se despediu numa postagem do Facebook. No texto, fica evidente a mágoa que a levou ao ato, e o mínimo de empatia torna possível que qualquer pessoa pense no tipo de dificuldades que um indivíduo trans enfrenta em sua vida. O tom dos comentários é de lamento, mas há também a revolta com o fato de ela ter sido tão fraca e desistido, como se fosse sua obrigação viver.

É claro que todos que estão vivos merecem fazê-lo da melhor forma possível. A única certeza que temos na vida é a morte, então tudo que podemos fazer é tentar viver plenamente, valorizando as pequenas alegrias que nos permitem enfrentar todos os dias, enquanto aguardamos aqueles momentos especiais e tentamos superar os ruins. Mas somos humanos e, apesar de falhos, somos seres racionais, capazes de muitas coisas extraordinárias. É muito fácil julgar que uma suicida é apenas um maluco ou um fraco, quando tudo na sua vida está indo bem. Só que não é assim para todos, e todo ser humano merece o respeito mínimo de suas escolhas. Se alguém resolve partir, é lógico que podemos oferecer ajuda, conselho e abraço, para que a pessoa entenda que não há volta e que essa pode não ser a melhor saída. Mas também, se ela já pensou em tudo isso e fez essa escolha conscientemente, não nos cabe respeitar?

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