De repente, 30!


São apenas três da matina e bateu aquela vontade louca de sair da boate. Quando foi que a coreô de Single Ladies passou a me cansar dessa maneira? E por que aquele boyzinho lírou com cara de criança emo está me dando mole? Quedê tiozão nessa festa? Será que sou o mais velho daqui? Santa Cher, eu tenho 30!!!

A “cultura gay” é obcecada pela juventude. Melhor dizendo, o consumismo que é. Todos os modelos nas revistas parecem ter 17 anos, o vampiro Edward tem essa idade pra sempre e a Madonna está fazendo de tudo para voltar a ela – logo acabará mais constrangedora nova que a Miley! Acontece que o consumo e a obsessão pelo brilho fake das celebridades; a busca por status, juventude e beleza eternas também são parte da nossa história, tanto quanto os tijolos de Stonewall. Mas será que existe uma saída dessa adolescência eterna?

Eu tinha 18 anos quando me assumi e caí de boca no mundo gay. Não demorou para escutar que eu  deveria aproveitar, já que “bicha depois dos 30 fica invisível”, o que é uma sentença apavorante. Entre risos, amigos, drinks e os últimos lançamentos pop, dez ou doze anos passaram voando e quando você percebe que é uma “cacura”! Claro que isso não passa de brincadeira, até porque ninguém envelhece depois da invenção da Hollister do botox, mas há sempre um fundinho de verdade. A vida gay, dentro do estereótipo cultural que a define no Ocidente, privilegia a juventude.

É importante fazer esse recorte, porque acredito que seja um conceito mesmo. É questão do movimento LGBT validar nossa diversidade e escolhas, incluindo aquela de não pertencer à “comunidade”, desde que isso não signifique menosprezá-la. Há quem atravesse a década entre os 20 e 30 sem a preocupação infantil de se manter jovem e bonito pra sempre, mas a pressão nesse sentido parece vir de todos os lados e para todos os grupos sociais. Uma criança de hoje pode sentir, a cada notícia sobre o Neymar, por exemplo, que o máximo da realização profissional vai chegar aos 23 anos, só para crescer e se ver frustrada quando sair da faculdade e encontrar – NOT – um mundo de oportunidades. E é justamente essa pressão por grandes realizações cada vez mais precoces que também contribui para a “crise dos 30”. Como é possível se considerar adulto quando o ideal endeusado disso ostenta uma posição social que demora cada vez mais para chegar (quando o faz)? Não é mais fácil ceder à tentação de um estilo de vida juvenil, repleto de batidas escapistas e frívolas?

Como foi que essas três décadas passaram? Ainda ontem eu ria do mamilo da Xuxa naquela blusa rosa transparente que ela usa na capa do primeiro LP, além de ensaiar a primeira disputa de divas ao defender que só ela era rainha, enquanto secretamente dublava “Vou de táxi” durante o banho.

Na mesma época, aprendi a fazer tranças na bonequinha da She-Ra, que foi permitida na minha casa apenas por ser irmã do He-Man (e nenhuma família pode ficar incompleta), mas que não satisfazia o maior desejo que consumia todo o meu pequeno ser: uma Barbie! Não é possível que tenha quase 20 anos que eu estava no Maracanã, apertando a mão da minha mãe, com medo de ser barrado por ser muito novo pra entrar no The Girlie Show! Foi no ano que me apaixonei por (e pelo) Aladdin, e pouco tempo depois preenchi o vazio deixado por Jem e as Hologramas no meu coração com Sailor Moon. Mas tudo isso ficou em segundo plano, porque a música nasceu, para mim, com o bater de saltos e a gargalhada da Mel B em Wannabe. Minha vida ficou mais apimentada. Falando nisso, entrei na internet e passei a fazer compras no mundo todo, até descobrir que os chats serviam pra arrumar homem fazer amigos .

A “saída do armário” aos 18 foi só porque meus amigos precisavam de um anúncio formal, apesar da minha coleção de bonecas. Começou a festa. Britney ficou doidona. Fiz outros amigos, perdi alguns, namorei, terminei, voltei, traí, fui traído, se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi, tirei carteira e vi celular se transformar em artigo de primeira necessidade. Queer as Folk me ensinou a ter orgulho e que as questões gays são atemporais, e Friends, que “they don’t know that we know they know we know”. Carrie Bradshaw é diva. Nesse tempo todo, um menino com uma cicatriz na testa cresceu junto comigo, e até sobreviveu a um segundo Avada Kedrava.

É, parece que a conta está certa. De repente é a hora de ficar mais sério e lançar um livro. Não dizem que a vida começa aos 40? Não importando a idade, o segredo é viver intensamente, então de repente os próximos 30 anos serão ainda mais fabulosos.

Permita-se. Seja livre. Respeite o tiozão.

Leia Dando Pinta todas as quartas aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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